22 setembro 2014

A História de Tudo


Havia uma rua, com árvores, e alguém a atravessava. Tudo ali era um pedaço de Universo.
Um pedaço da vasta história de tudo.
A pessoa que a atravessava. O chão. As árvores. O vento que soprava.

Cada átomo e molécula uma combinação de combinações em uma grande e infinita caixa de peças de montar. Encaixe como queira. Pegue um pouco de estrelas, um pouco de dente de sabre, um pouco de cometas, um teco de folhas de hortelã. Ali vai uma bicicleta.

Cada canto para o qual olhava, via uma infinidade de possibilidades.
Não viu aquela galáxia, velha conhecida, colidindo consigo.
No chão, riram. Ondas se propagando por todo o espaço. Ergueram-se. Sorriram.

Era nébula. Nefertiti. Pétalas de rosa e gotas de mar do pacífico.
Era asteroides. César. Marfim e casca de salgueiro.
A vastidão da amazônia na imponência de Júpiter, olho no olho.

O Universo. É. Simplesmente. Desde quando começou a ser. Sem mais, sem menos. Apenas reorganizando-se como uma lista de pensamentos, uma sucessão de pastas. Combinando-se como notas de uma canção que há muito é tocada de novo e de novo, sem fim. Uma canção sem fim. Um punhado de notas pré-existentes e tantas combinações, tantas possibilidades. Sem jamais se repetir. Jamais. Um quadro com uma palheta e cores se misturando, uma sobre a outra, e nenhuma nuance sendo exatamente igual a anterior. Uma sucessão de palavras que nunca dizem o mesmo, nunca são o mesmo.

E ali estão, todas as combinações espalhadas pelo tempo e espaço se recombinando para formar novas coisas. Tudo é parte do cosmos e o cosmos é parte de tudo. Uma coisa só. Pensamento tão vasto este que se perde em meio à toda a matéria moldável com formas infinitas.

Em uma dessas formas havia sete bilhões de outras formas, mais tantos outros bilhões e bilhões que são, que foram e sabe-se lá quanto mais seriam. Coisas. Pessoas. Seres. Pequenos universos perambulando por aí.

O universo sangrava naquela esquina de um planeta, de uma esquina de uma galáxia, de uma esquina de toda a criação. Sangue de diamantes e pó estelar.

Passou por ali um cão feito de meteoro e uma família feita de cauda de cometa. Passou um ônibus carregando sistemas solares completos.

"Estive correndo. Por muito tempo" disse o universo feito de Salgueiro, pegando um pouco de pó lunar para limpar as gotas no joelho do universo de Nébula. "Correndo de que?".

Sem saber responder, olhou para o céu. Nuvens de Van Gogh pintaram-se cobrindo as estrelas feitas de Audrey Hepburn e Gene Kelly que brilhavam em algum lugar. Piscou seus olhos de Júpiter e disse, por fim "correndo da mais bela verdade da existência". O universo feito de Nébula, com o joelho quase sem sangrar agora, perguntou então: "Qual seria esta verdade?".

"Infinito. O Universo, nós, a calçada, aquele cão, aquela árvore, tudo. Infinitos, em diferentes formas
e tamanhos e irrepetíveis para todo o sempre." Prendeu seus olhos de planeta nos outros de floresta bem à sua frente. Um trovão ressonou dentro de si e sentiram, enfim, o que era uma colisão de galáxias de verdade. "Não posso", continuou, "desperdiçar um segundo de minha infinitude".

Ergueu um dedo de Sócrates e inspirou, fôlego de Napoleão. Tocou o rosto à sua frente, o qual sorria um sorriso de Mona Lisa, olhar de ressaca. Como poderiam imaginar, como qualquer um poderia imaginar... Um encontro em uma esquina perdida, uma reviravolta no curso das coisas. O caleidoscópio girava mais uma vez e, imediatamente, surpreendentemente, aquelas duas coleções sublimes tornaram-se se uma: infinita enquanto existissem, unida enquanto pudessem. Sob o sol das histórias de Dédalo e à sombra das árvores de pedaços cósmicos, pisando um chão que poderia ser Plutão... Contribuíram para a vasta história de tudo com um verso. Consumaram o efeito mais belo que o quebra-cabeças estelar poderia criar, nascido deles como botão em flor, com um dourado beijo de Klimt.

Este texto surgiu depois de ficar inspirada com o que Caitlin Moran escreveu sobre o universo, o que me fez lembrar de uma frase de Doctor Who e de mais algumas frases sobre infinitos. Então, acho justo ressalta-los aqui. 

31 julho 2014

À Luz da Manhã


Para Matheus e João.
Ouça.
Crescer é como correr descalço na areia. Os pequenos grãos tocam sua pele e você sente, mesmo com a maciez do movimento ou o impacto suave, a aspereza do solo. A sensação é incômoda, mas ao mesmo tempo libertadora. Você para, então, e olha ao redor. Olha as marcas de seu pé no caminho que fez e o modo como, em alguns momentos, eles foram suaves e quase imperceptíveis e, em outros, foram largos e espalhafatosos. Você olha para o outro lado e vê o quanto ainda há para ser marcado. O som do oceano chega aos seus ouvidos e a brisa sopra seus cabelos e você sorri: está bem ali, entre onde já correu e para onde ainda vai correr. Mas, no fim, você só quer sentir seus pés afundando na areia enquanto o mar sopra sua canção ao vento.

Crescer é como subir uma colina de grama verde molhada pelo orvalho da manhã. Você quer saber, mais do que tudo, o que há do outro lado: serão montanhas ou vales? Serão córregos ou lagos? Que tipos de árvores haverão para serem escaladas? Mas antes de abraçar tal visão, você apenas toca a grama úmida e sente seu perfume doce, enquanto põe um pé à frente do outro.

Crescer é como sentar-se em uma praça vazia em uma noite escura, com o vento frio entrando debaixo do casaco. No céu há nuvens e a lua é minguante. Tudo o que você pode ver é um pedestre ou outro, um carro ou outro. Você pode observar os desenhos no chão de pedra, ou encarar o busto no centro da praça. Mas quer apenas voltar-se para si e o tremor que sente quando o frio sopra sua nuca.

Crescer é como entrar em um teatro quente e cheio e ouvir centenas de vozes nos mais diferentes tons falando desalinhadas. É como ler um livro em uma madrugada, com uma xícara de café ou chá esfriando ao lado. É trocar os dentes, um a um, e ralar o joelho, cada um, e se espetar no espinho de uma rosa, toda vez, e engasgar com a lágrima de um riso, cada vez.

Crescer é como uma canção. Você a ouve e dança, acompanha o ritmo, tendo dois pés esquerdos ou não. Às vezes a canção fica tão agitada que você se perde nos passos. Outras, ela soa tão solitária que não há espaço.

Crescer... Condição para viver. E por que faz sempre o coração de quem cresce sentir-se tão incompleto, incerto? Onde se pode encontrar novamente o conforto de chorar apenas por um joelho e não pela vagueza?

Crescer é ambíguo e tortuoso e paradoxo. Crescer é ter saudade. Crescer é faltar palavras. Crescer é impossível e é tudo o que há. Seria crescer escrever uma história? Crescer, então, para ser a melhor que puder e ver, por fim, o rumo para o qual o mundo cresce. 

13 junho 2014

Sobre os meses sem novas postagens

Estudar é difícil. Você tem que usar seu tempo para isso e acaba não dando a atenção que devia para as outras coisas da sua vida, no meu caso, a escrita. E meu blog.

Então, o motivo para meu sumiço absoluto é esse (além de alguns acontecimentos no meio do caminho que sugaram minha força de vontade). Porém, estou ajeitando o caminho para voltar, talvez não com tudo ainda, mas voltar.

Preparem-se, "Letícia is coming".

Dentro em breve novas postagens, algumas de alguns textos escritos ao longo do ano e outras de textos escritos agora. E é isso aí.

Obrigada pela atenção!

12 novembro 2013

Saudade

imagem via Poemática

Saudade.

Saudade de palavras. Saudade de sonhos. Saudade de segurar em uma caneta e caçar palavras para compor sonhos. Saudade de ver as palavras e sonhos de outros.

Saudade.

Saudade de ânimo. Saudade de aprender. Saudade de aprender com ânimo, todos os dias, dia após dia. De sentir paixão pelo que se aprende.

Saudade.

Saudade de acordar. Saudade de sentir. Saudade de acordar e sentir que há muito para se ver. De então ver a vida e senti-la.

Mas a maior saudade é de quando não havia cansaço. Este cansaço de tudo. E desejar que passe, e desejar que escoe. Para que então voe de volta para o que se tem saudade.

Saudade, por fim, de quando o mundo não era cansado e feio, mas sim feito... de sonhos, palavras e paixões... e do ânimo exuberante que tocava cada alma que nele habitava.

Saudades...

03 setembro 2013

Sarjeta


Olhe. Um pequeno quadro, um momento. Ali, por onde homens de calça social passam apressados e mulheres de sapatos baixos esticam-se para o outro lado, há um retrato. Ninguém o vê. Ninguém o quer. Passam ao seu lado, passam por cima, passam. Os poucos que o olham não veem realmente o que há para ser visto. Enxergam um obstáculo e mal percebem o mundo refletido ali, naquele espelho plácido que espera pacientemente por alguém que o olhe.

Um garotinho joga uma folha de papel. Um segundo para captar o rosto do menino não é o suficiente. Uma perturbação. Espera.

Um homem passa olhando o além. Mas por que, por que não olha? Não consegue ver, bem ali, a beleza que está esperando por alguém?

Vejo o céu, azul, puramente azul, com nuvens doces e a árvore emprestando sua cor verde. Enquanto todos olham para o concreto, olho para o infinito. O tempo todo vejo o infinito e seu temperamento conturbado: ora ensolarado, ora tempestuoso. Ora azul e verde, ora cinza e vermelho.

Naquela singela tarde capturava o belo azul e verde e apenas uma pessoa concedeu tempo para o reconhecimento merecido. Não é algo imundo. É muito mais do que isso.

Passa uma ave. Passa um carro. Uma onda desmancha todo o belo quadro. Tão logo a ave voa e o carro acelera, o espelho da rua volta a apontar aquilo que ninguém tem tempo de ver e permanece... Silencioso. Invisível. Imperturbável.