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Papel e Caneta

Uma crônica/conto/sei lá pra alegrar (ou não) você.


A aproximação foi lenta. Primeiro uma breve reverência, pois educação nunca é demais. Depois se tocaram e algo mágico começou ali. Uma dança. Era um balé, ensaiado, nos compassos certos, com piruetas e saltos. Às vezes, caiam. Mas logo se reerguiam e recomeçavam a dançar.

Depois mudaram o ritmo. Uma salsa, talvez? Nuances em seus passos, uma mistura de tantos estilos.

E não importava a cor de um ou de outro, o formato, suas origens. A arte final era maravilhosa do mesmo modo. Algo fluía e vazava para o mundo observar e admirar. Algo para pensar, sentir, tocar, observar, viver.

Seus passos eram fortes e decididos, e então se aquietavam e, repentinamente, se tornavam tranquilos e relaxantes. Quando isso ocorria, era possível identificar algumas lágrimas de comoção dos espectadores.

E não era só isso.

Como se cada passada falasse, uma nota musical ou um som eram ouvidos. Depois, era possível ver pequenos mundos surgindo de seus saltos, piruetas e pliês.

Num momento haviam flores, raios de sol, uma música lenta e tranquila. Era possível sentir a cumplicidade dos dançarinos dentro de si próprio. E então algo acontecia. Penso que eram as benditas nuances de ritmos. Agora, sentia-se melancolia, ouviam-se notas estrondosas e via-se uma lua tristonha refletindo em um lago tristonho.

Mas que belo era assistir à tudo aquilo. Podia durar todo o tempo do mundo, a eternidade. Aquela era a mais bela dança já vista e, com certeza, a obra final era a mais bela e de melhor gosto.

Mas infelizmente, tudo tem um fim. Fui obrigada a ver a caneta pousando no papel. A tinta secando enquanto a luz era apagada e uma bela história era deixada para trás.

Mas vou te contar um segredo: nenhuma história realmente é deixada para trás; elas são imortalizadas para outras pessoas poderem sempre apreciar a bela dança do papel e da caneta.

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