Pular para o conteúdo principal

Até mais ver, Morte.

O Infinito, 21 de Outubro de 2010 (data humana)

Cara Vida,

Penso que entramos em conflito novamente. Sei que você adora dizer que este é um problema que devemos resolver. Mas, como poderíamos? Somos completamente opostas!

Este é provavelmente o momento em que você diria "mas necessárias". Bom, vamos analisar os fatos, está bem?

Você, para o homem, é milagrosa. É bela, branca, pura. Eu sou obscura, macabra, triste. Na verdade, não sei de onde eles tiraram todas aquelas imagens sobre nós, concorda? Certa vez vi um livro de um homem - que ainda não conheci, mas, como é natural, conhecerei - em que ele dizia que minha imagem era simplesmente a que um humano vê no espelho.

Isso foi muito bom! Os humanos me surpreendem, as vezes. Alguns deles tem um coração puro, sensível. É bonito de sentir. Mas a maior parte são vazios, insípidos. Chega a ser nojento, algumas vezes.

Mas, a imagem que eles têm de mim simplesmente acaba comigo. E é algo pessoal, sim. Eles não querem morrer, então me tratam como um tabu ou algo do tipo. Claro, existem exceções. Certa vez uma moça - que também ainda não conheci - disse, em seu livro, que "para a mente bem estruturada, a morte é apenas a próxima aventura". Isso me deixou animada. Quer dizer que eu sou a próxima aventura, para as pessoas mais fortes.

Só que essas pessoas fortes praticamente nunca chegam.

E você, Vida, é quem os cria. Você os põe no mundo. Você os guia e, em alguns momentos, eu me aproximo, para checar se está na hora - e é nesses momentos que eles recorrem à medicina ou religião, sem nem perceber que, muitas vezes, depende apenas deles. Se não estiver na hora, parto e só volto mais tarde.

Mas não importa quantas vezes eles se salvem, um dia será seu dia. E, quando esse dia chegar, nem você, Vida, pode impedir, como bem sabe. É um trabalho árduo, recolher tantas almas, enquanto você põe outras no mundo (que nem sempre são boas almas e, que fique bem claro, eu apenas as recolho).

Mas, basicamente é isso. Ao olhar deles, você é perfeita, o motivo deles existirem. E eu sou apenas o fim deles (porque eles só sabem o que acontece depois de mim, quando chega o momento de nos conhecermos).

E agora, pensando em tudo isso, eu posso dizer que sim, somos necessárias uma à outra. Mesmo com nossas desavenças e diferenças, uma não consegue existir sem a outra. É isso que mais me irrita e, ao mesmo tempo, mais me fascina.

Mas, mesmo você ganhando em tudo, existe uma coisa que eu com certeza ganhei de você. Na Vida, a única certeza é a Morte.

Até mais ver,

Morte.

Comentários

  1. é uma diva mesmo, essa menina............ <3

    ResponderExcluir
  2. porra menina, para com isso nao da nem tempo de respira
    muito foda a carta, faz o meu texto do meu "livro" parecer brincadeira de criança

    ResponderExcluir
  3. Depois de Sweet Sunshine essa é a sua obra que eu mais gostei. Você é genial, garotinha.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Obrigada pela visita! Deixe um comentário e compartilhe com os amigos!

Postagens mais visitadas

Peões

Hoje, somos peões.

Na grande batalha da humanidade por um passo a mais, um nível a mais em direção à utopia que imaginamos, nós somos os peões.

Há sangue. Há dor.

Há a busca pela aceitação. Somos um. Um grande pequeno pedaço de um enorme universo. Isso é lindo. Isso é esquecido. Enterrado abaixo de muita sujeira e palavras de dor, de culpa, de ódio.

Há busca pela verdade. Porque mentem e enganam, ou porque muitos se intitulam proprietários das respostas para tudo e aqueles que creem nessas respostas lutam cegamente por elas. Ou mentem e enganam e tiram dos outros tudo aquilo que têm.

Busca-se dignidade. Busca-se justiça. Busca-se orientação.

Há a destruição de tudo o que se vê. Tudo o que existe em perfeito equilíbrio na grande engrenagem da vida... desequilibrada, e não há remorso por isso. Há morte, há destruição e não há quem veja que destruir o meio é destruir a si.

Destruir o próximo é destruir a si.

Uma palavra de ódio. Um galho arrancado. Uma liturgia mal pregada. Um lí…

As minhas Bienais do Livro

Mais um ano de Bienal do Livro de São Paulo passou por aí. Mais um monte de dias de livros, autores, leitores, cosplays, cenários e brindes.

Um dia em que fui eu.

Depois de um longo tempo sem ter vontade e energia para ler e escrever, comecei a voltar para este universo, pouco a pouco. Escrevi aqui e ali, voltei com o blog e comecei a ler um livro no meu Kobo.

Aí veio a Bienal e fiz minha listinha. Compraria coisas para dar aula e HQs que queria há muito tempo. Não achei as HQs, não comprei livros para dar aula, comprei outros que sempre quis ou que me interessei na hora. Comprei jogos. Comprei colecionáveis.

Mas a parte mais legal foi interagir com autores e leitores e divulgar o por-fora. Cumprindo, de certa forma, o que prometi há tanto tempo...

Vamos passear um pouco pelas minhas Bienais.

Há oito anos, quando estava no Ensino Médio, fui com a escola em minha primeira Bienal. Rendeu alguns livros, um botton que amo muito (eu coleciono e amo demais) e muitas fotos épicas com os amig…

Então... Um Rosto na Multidão

Eu quero lutar. Você não vai me ver parar. Porque eu sei que o mundo precisa de mudanças e elas precisam começar de algum lugar, mesmo que seja por causas menores (ainda que não existam causas menores). Você não vai me ver desistir, você me verá batalhando.
Posso ser apenas mais um rosto na multidão, mas é exatamente isso que quero ser, porque é isso que uma multidão é: um monte de rostos, bravos, querendo algo mais. Então, venha ser mais um rosto na multidão ativista, e não na passiva. Seja mais uma voz gritando seus direitos.
Não é possível que você não se incomode. Mesmo que sua vida esteja boa, assim como a minha, que você possa estudar, ter seu emprego, ter sua comida, comprar suas coisas (não tudo o que você quer, mas uma coisa ou outra), não é possível que você olhe para o mundo em sua tv ou computador que você lutou para comprar e não sinta nada ao ver... ver como há pessoas que não tem comida e água e que estão doentes, ver pessoas na seca do sertão com o gado morrendo e cria…