03 outubro 2010

Botações

Antes que você diga "o que raios essa menina colocou no título", apesar de eu ter certeza que você já disse isso, eu vou explicar contando uma história bem nostálgica, que remete a um passado remoto (ou não, né) da minha vida, quando eu era uma garotinha que não sabia falar direito.

Eu acho que sempre gostei de votações. Naquela época eu decidia tudo por votações, que eu simpática e ingenuamente chamava de "Botações". Era bem democrático. Começavam a discutir qual sabor de pizza era melhor e logo eu aparecia com a idéia "vamos fazer uma botação!". Ficavam na dúvida de que filme ver, e prontamente eu resolvia a situação.

E então eu cresci e a democracia ficou um pouquinho mais séria. Pequenas eleições na escola para representantes de classe ou grêmio estudantil. Até uma certa época, em meu desespero em participar, eu me candidatava e recebia uns dois ou três votos no máximo. Mas não importava, era legal mesmo assim.

E então eu cresci mais ainda e fiz dezesseis anos. E então me lembrei que eu poderia votar para presidente, no ano seguinte. Inicialmente minha mãe defendeu a ideia de que eu não deveria votar pois ainda não entendia de política. Já meu pai fazia questão que eu votasse. Então chegou a época de tirar o título e minha mãe já se orgulhava do fato de sua "filhinha estar tão moça votando". Uma fila enorme embaixo do sol, de pé durante horas, e então consegui meu pedaço de papel que comprovava que eu era uma cidadã que pode exercer seus direitos de cidadã. Ou algo assim.

E daí começou a aventura.

Meu objetivo não é exatamente criticar os candidatos que apareciam no horário político (que estava uma coisa fantasticamente hilária, com um candidato mais TOSCO que outro) ou o que o pessoal votou. É só contar essa experiência.

Tive certeza de quem eu ia votar desde o início, talvez até desde "criança" (porque eu sempre simpatizei com a turma em questão).

E então eu acordei no domingo que mudaria o futuro do meu país, e minha barriga dava voltas de ansiedade. Eu iria votar e, me conhecendo muito bem, tinha medo de errar na hora, me perder, não saber o que fazer. Acontece que entrei na sala certa e não tinha fila nenhuma. Apenas uma mulher na minha frente e outra que já estava votando. E, enquanto esperava, uma das mesárias me perguntou minha idade, e quando respondi "dezesseis" ela disse "puxa, e já está exercendo a cidadania, muito bom. Parabéns!".

E dai eu fiquei frente a frente com a máquina. E abri minha cola enorme (pra não errar MESMO na hora de votar). E digitei número após número, lentamente, mais para não errar, mas também pra sentir a emoção do momento.

Em poucos segundos estava indo embora.

Ou seja, você espera dezesseis anos para participar de uma "botação" de verdade, você aguenta meses de preparação, você fica meses assistindo aqueles caras na televisão, você faz todo aquele monte de coisas e se informa e fica morrendo de medo de fazer caca porque é a primeira vez... E acaba em menos de cinco minutos.

Mas tudo bem. Porque, pelo menos para mim, a primeira vez de coisas importantes na sua vida, que em pouco tempo se tornarão cotidianas, é a unica da qual você sempre se lembrará; e é exatamente por isso que você deve registrar cada segundo do seu momento. Para ser inesquecível, para que depois você possa contar pra qualquer um que queira ouvir como foi seu momento. Para poder reviver aquilo todas as noites que quiser, quando tiver a cabeça no travesseiro.

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