16 novembro 2010

Sem Palavras

Santos, 16 de Novembro de 2010

À você que entende,

Desculpe-me o sentimentalismo. Não faço ideia do por que disso agora. Ou talvez faça, mas não seja corajosa o suficiente para demonstrar. E perdoe-me também a extensão de minha carta, mas era necessário contar tudo. E ainda acho que fui bem sucinta, por assim dizer, no que pretendia. Poderia falar muito mais.

Mas vamos ao princípio: quando era uma criança me envolvi num mundo de onde nunca mais poderia sair. Era o mundo de palavras, frases, idéias e sentimentos. Me foi muito sedutor, logo de início. O modo como se moldavam, essas tais palavras, ao som da voz de minha tia, me acertou em cheio. Me olharam com olhos de... ressaca. É, de ressaca. Me inundando, me tomando. E então tive certeza de que era aquilo mesmo que eu gostava.

Anos se passaram e as palavras me apareceram em quantidade, como uma chuva torrencial de verão: quentes por causa do sol e, mesmo assim, refrescantes; também por causa do sol. Elas invadiram minha cabeça e meu coração, mas foram um pouco mais além. Tenho certeza de que entraram em minha alma.

Não entendo de alma, veja bem. Se é que ela sequer existe. Mas se existir, tenho plena certeza de que é isso mesmo que essas palavras fizeram. Elas trouxeram luz à minha alma. E era como se eu finalmente tivesse começado a viver.

E então, como já disse, comecei a crescer com mais e mais palavras. Até que algumas começaram a chegar no fim. Quem já experimentou a sensação de sua primeira palavra, ou conjunto delas (as minhas foram "O Sr. e a Sra. Dursley se orgulhavam de dizer que eram perfeitamente normais, muito bem, obrigado"), se esvair pelos dedos, sabe como me senti quando as minhas se acabaram. Elas se estenderam por longos sete volumes grandiosos, que me duraram sete anos. Mas, ao fim do sétimo, toda a grandiosidade se foi.

Elas eram grandiosas em todos os sentidos, com certeza. Me foram melhores amigas, quando os de carne e osso me faltavam, foram confidentes, quando não tinha em quem mais confiar, foram pai e mãe, quando os originais não se encontravam. Vivi aqui e lá. Ou será que vivi lá e aqui? Não sei, não me lembro mais de como separar...

De qualquer modo, era como se aquele meu grande amigo morresse. Suas últimas palavras para mim foram "tudo ia ficar bem". Eram as últimas das minhas primeiras palavras. Logo em seguida, lágrimas escorreram dos olhos e do coração. Durou por volta de um mês. Então comecei a me recuperar. O luto continuou, e continua até esta data (e provavelmente continuará por muitos anos). Mas o que era dor é agora saudade.

A partir dai, comecei a encarar tudo com outros olhos. Não tinha mais aquele amigo, mas ainda podia me recordar de seus conselhos sábios. Eram suas palavras, gravadas a ferro e fogo. E então conheci novas palavras. As mais curtas davam uma peninha quando acabavam. Algumas eram um pouco mais longas, usavam alguma centena de páginas. Dava pena também, e como. E ainda haviam outras que se estendiam por mais tempo (não tanto quanto aquelas famosas primeiras), que causavam dor quando acabavam.

Hoje experimentei outra despedida dessas. Um "até mais ver" foi o que me disseram. Eu chorei. Não tão copiosamente, mas chorei bastante. E agora que as lágrimas dos olhos secaram, só sinto as do coração. Despedidas são assim. Sabemos que sempre veremos as pessoas, afinal "aqueles que nos amam nunca nos deixam realmente" (palavras que aprendi em todos esses anos). Seja lá para onde a pessoa (ou, no caso, palavra) esteja indo, se ela te ama (o que acredito que faça) ela vai estar sempre com você.

Mas é triste, por um tempo. Não ter novidades para contar no ouvido. Não espreitar no escuro, com uma luz fraca, e dividir um segredo, com medo de ser descoberto. Aquela "felicidade clandestina". É triste porque agora nada será novo. Mas acho que isso, a novidade, é o menos importante. O importante é ter vivido minhas aventuras com tais palavras (algumas muito bonitas, outras românticas, outras duras...) e ter gravado todas elas em meu coração.

O mais importante é que sempre poderei recomeçar. Recomeçar as palavras já conhecidas, ou seguir em frente para descobrir um novo conceito. Uma nova forma de amar, uma nova forma de viver, de aprender, de crescer. Eu sei que é isso o que realmente importa. Erguer a cabeça para mais um recomeço. Porque é isso que vivo, cada vez que termino uma palavra (que nada mais é do que um momento rápido, que se esvai com igual velocidade, do qual temos de aproveitar ao máximo). Uma nova hora para começar algo novo, sem se esquecer do que passou.

E aí estou, pronta para um recomeço. É hora de, como aprendi em algum lugar que você possivelmente já deve conhecer, "agarrar as palavras como nuvens e torcê-las como chuva". Acho que esse é um bom momento para me recordar de minhas lições. Mais uma vez, aquelas palavras, as últimas daquelas primeiras que perduraram sete anos, não poderiam estar mais certas. Tudo ficaria bem. Sempre.

Esperançosa,
Uma torcedora de palavras

PS: O título não dei porque não há palavras boas o suficiente, fiquei sem palavras. Agora você pode imaginar à vontade como vai se chamar a história que lhe contei. Se alguma palavra te acertou, peço perdão. A não ser que seja de forma positiva; neste caso, agradeço por me deixar entrar em seu coração.

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5 comentários:

  1. Por que, me diz POR QUE você tem que escrever coisas tão perfeitas? Awn, parabéns Let! Um texto cada vez melhor que o outrol... Ou não. Não sei classificar, são todos... impecáveis! Amo você <3

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  2. Bruna Itzicovitch16/11/2010 20:44

    leeeeeeeeeemds *-*
    partes that touched my heart hahaha
    senti a sua tristeza -s
    capricórnios são maras!

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  3. Incrivel como cada palavra entrou suavemente e saiu levando consigo varias emoções diferentes e iguais, cada qual com sua palavra

    Realmente me identifiquei
    Math,Bingão

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  4. Não acompanhei e vivi essa experiência. Vivi coisas parecidas, mas deve ter sido especialmente especial criar uma paralelo da sua vida com isso, e esperar ansiosamente por mais. até que essa mais chegasse a esse fim.
    Bem, mas a vida não acabou e tem muitos mundos para você descobrir ainda.
    Como diz o Frank Zappa, So many books, so little time.
    Bom que você aproveitou cada letra e cada virgula.

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