Pular para o conteúdo principal

Seu Reflexo, Sua Imperfeição

Eu ia mandar para o Bloínquês, mas desisti. Enfim, aproveitem.



O quarto. Era seu reduto, onde tudo acontecia. Contavam histórias aquelas paredes e móveis. Estava sozinho, mais uma vez. Um leve cheiro de mofo vinha do assoalho e penetrava sua pele, consumindo-o. O rangido da madeira se assemelhava ao de seus próprios ossos, se encontrando a cada passo. A tinta da parede descascava como sua pele, escamosa. Seus cabelos eriçados, revoltados como o monte de tralhas em um canto.

Submisso, era o que era. Nunca erguia a cabeça, nem mesmo para si no espelho. Espere, espelho? Não conhecia mais a face de lá nem de cá. Todas pareciam uma e uma parecia todas. Esquisitas, inocentes na expressão, ferozes no olhar. Manchadas e marcadas.

Ali em seu reduto afogava suas mágoas em fumaça. Dores lancinantes atingiam sua mente, provocando a dor no peito de quem sofre. O porque, já não sabia mais. Fazia tanto tempo... Mas seus olhos não negavam. Revoltados como a maré, ardentes como o inferno, gritavam como se sentissem toda a dor de todos os homens.

Ainda não existia força para ele em seu mundo fechado. Ninguém parecia entendê-lo e ele não entendia ninguém. Era ele e seu mofo, habitando o mesmo cômodo, o mesmo corpo, a mesma alma. Não havia porque tentar se não tinha um objetivo a se alcançar. Era isso o que acreditava e era isso que ia continuar pensando. Se é que pensava.

Pobre coração dilacerado. Abandonado por aquela que nem mesmo podia vê-lo. Ele a via, todos os dias, por entre as frestas das janelas. E sonhava acordado o tempo que precisasse. Mas lhe foi arrancada de seu peito tão rápido quanto quando foi colocada. E ficaram ali marcas demais para suportar, de sangue, de dor.

Não! Não devia ser isso. Talvez seu passado que fizera questão de esquecer lhe explicasse algo. Mas, como não queria se lembrar, por que deveria se esforçar? Não, não. Não havia nada de errado. Por que estaria algo errado?

Porque é assim que pensam aqueles que dominam o mundo. Usufruir enquanto pode, viver o que der. Se auto-destroem. Mofam, escamam, sofrem, sangram. Vivem na fumaça de seu reduto. Não reconhecem a si mesmo e uns aos outros, revoltados e desesperados, ferozes por sabe-se lá o que.

Ele era o seu reflexo, de sua história, seu caminho, sua descrença. Ele era toda a sua imperfeição.

Comentários

Postagens mais visitadas

A História de Tudo

Havia uma rua, com árvores, e alguém a atravessava. Tudo ali era um pedaço de Universo.
Um pedaço da vasta história de tudo.
A pessoa que a atravessava. O chão. As árvores. O vento que soprava.

Cada átomo e molécula uma combinação de combinações em uma grande e infinita caixa de peças de montar. Encaixe como queira. Pegue um pouco de estrelas, um pouco de dente de sabre, um pouco de cometas, um teco de folhas de hortelã. Ali vai uma bicicleta.

Cada canto para o qual olhava, via uma infinidade de possibilidades.
Não viu aquela galáxia, velha conhecida, colidindo consigo.
No chão, riram. Ondas se propagando por todo o espaço. Ergueram-se. Sorriram.

Era nébula. Nefertiti. Pétalas de rosa e gotas de mar do pacífico.
Era asteroides. César. Marfim e casca de salgueiro.
A vastidão da amazônia na imponência de Júpiter, olho no olho.

O Universo. É. Simplesmente. Desde quando começou a ser. Sem mais, sem menos. Apenas reorganizando-se como uma lista de pensamentos, uma sucessão de pastas. Combinando-se…

Dia Três: Walmart e Downtown Disney

Dia 15... de Setembro, sábado.

A dois meses atrás, na hora que estou escrevendo isso, contando o fuso-horário, eu estava me arrumando, ou tomando café ou pegando o táxi. Alguma coisa assim.

Nosso café da manhã nesse dia foi o resto da pizza da noite anterior. Estive refletindo sobre o assunto e, sim, nós jantamos uma pizza enorme e linda e sobrou mais um monte para o café da manhã (e foi o que comi). A pizza americana não é tão boa quanto a nossa, mas também não é ruim. É aceitável, digamos assim. Apesar de que em certo ponto da viagem eu já não aguentava mais olhar pra dita cuja.

Só que eu adoraria olhá-la agora, afinal, significaria que estou lá, entende? Ok, prometo que parei.

Enfim, pegamos um táxi na porta do hotel. Vou falar um pouco do hotel, já que não tem muito o que ficar falando do Walmart. Tinha uma sala "Arcade", mas acabamos nem entrando nela porque não deu tempo, no mesmo corredor que (uma das) a entrada do "restaurante" e também a loja (uma miniatura…

Chá de cadeira

Se não quer tomar um, não leia. Eu falei pacas kk
Já ouviu essa expressão, chá de cadeira? É quando você fica muito tempo sentado esperando alguma coisa. Pois é. Ontem experimentei as delícias (ou não) de um chá de cadeira.
Guarda isso na cabeçinha. Arquivou? Beleza, vamos continuar.
Sabe quando você assiste aquele filme ou série de médico (tipo House, haha, amo) e você pensa "cara, como será que é trabalhar aí?!". Não digo na série filme, digo no hospital. Eu já pensei muito isso. Seria bem legal experimentar um corre-corre de hospital, ver como é um corpo humano DE VERDADE, sem esquemas em livros, ver médicos, ter os conhecimentos de médicos... seria tudo! Mas medicina não é pra mim, sabe, é tenso ter a vida de uma pessoa nas suas mãos. Muita responsabilidade.
Agora, lembra do que você tinha arquivado, do chá de cadeira? Não lembra? Ok, lê o começo do post de novo pra lembrar. Lembrou? Ok, então vem comigo.
Ontem fui com minha mãe para o hospital porque ela não se sentia …