03 novembro 2010

Seu Reflexo, Sua Imperfeição

Eu ia mandar para o Bloínquês, mas desisti. Enfim, aproveitem.



O quarto. Era seu reduto, onde tudo acontecia. Contavam histórias aquelas paredes e móveis. Estava sozinho, mais uma vez. Um leve cheiro de mofo vinha do assoalho e penetrava sua pele, consumindo-o. O rangido da madeira se assemelhava ao de seus próprios ossos, se encontrando a cada passo. A tinta da parede descascava como sua pele, escamosa. Seus cabelos eriçados, revoltados como o monte de tralhas em um canto.

Submisso, era o que era. Nunca erguia a cabeça, nem mesmo para si no espelho. Espere, espelho? Não conhecia mais a face de lá nem de cá. Todas pareciam uma e uma parecia todas. Esquisitas, inocentes na expressão, ferozes no olhar. Manchadas e marcadas.

Ali em seu reduto afogava suas mágoas em fumaça. Dores lancinantes atingiam sua mente, provocando a dor no peito de quem sofre. O porque, já não sabia mais. Fazia tanto tempo... Mas seus olhos não negavam. Revoltados como a maré, ardentes como o inferno, gritavam como se sentissem toda a dor de todos os homens.

Ainda não existia força para ele em seu mundo fechado. Ninguém parecia entendê-lo e ele não entendia ninguém. Era ele e seu mofo, habitando o mesmo cômodo, o mesmo corpo, a mesma alma. Não havia porque tentar se não tinha um objetivo a se alcançar. Era isso o que acreditava e era isso que ia continuar pensando. Se é que pensava.

Pobre coração dilacerado. Abandonado por aquela que nem mesmo podia vê-lo. Ele a via, todos os dias, por entre as frestas das janelas. E sonhava acordado o tempo que precisasse. Mas lhe foi arrancada de seu peito tão rápido quanto quando foi colocada. E ficaram ali marcas demais para suportar, de sangue, de dor.

Não! Não devia ser isso. Talvez seu passado que fizera questão de esquecer lhe explicasse algo. Mas, como não queria se lembrar, por que deveria se esforçar? Não, não. Não havia nada de errado. Por que estaria algo errado?

Porque é assim que pensam aqueles que dominam o mundo. Usufruir enquanto pode, viver o que der. Se auto-destroem. Mofam, escamam, sofrem, sangram. Vivem na fumaça de seu reduto. Não reconhecem a si mesmo e uns aos outros, revoltados e desesperados, ferozes por sabe-se lá o que.

Ele era o seu reflexo, de sua história, seu caminho, sua descrença. Ele era toda a sua imperfeição.

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