Pular para o conteúdo principal

Um Bolso Encharcado


Teve de esperar o ano inteirinho por aquele dia. Noites sem dormir, dias sem sair, livros por toda parte. Seus olhos tinham olheiras quilométricas, seus cabelos nunca mais foram penteados direito.

Foram meses de desespero para aprender e continuar aprendendo e recordar e treinar. Eram tantos "es"! Aqueles cálculos, aqueles textos e mapas. Conhecimento nunca fora tão cansativo.

Mas ali estava ele. Tinha conseguido, no fim das contas.

Foram anos, na verdade, caminhando para aquele dia. Desde uma criancinha até agora. Um jovem determinado. Seu coração estava cheio de alguma coisa que quase não cabia lá dentro. Era um aperto para fora, que fazia palpitar mais que o normal.

Então ele recebeu aquela folha de papel que dizia que agora ele estava formado.

Olhou para a folha em suas mãos. O certificado de verdade, não aquele tubinho vazio simbólico. Estava andando lentamente até a sua bicicleta com a boca em forma de O e olhos arregalados. Guardou o papel no bolso, subiu na bicicleta e de repente toda sua exaustão desapareceu.

Porque agora ele poderia finalmente descansar.

Começou a pedalar rapidamente sentindo o vento no seu rosto e soprando seu cabelo. Chegou em uma ladeira e ergueu o chapéu que estava usando.

- ESTOU DE FÉRIAAAAAAAS!

Um casal de idade parou e olhou para ele. A velocidade da bicicleta só aumentava. Mais a frente uma mulher guardava suas compras no porta malas do carro.

- Você ouviu? ESTOU DE FÉRIAS! - ele gritou para ela.

Quase não conseguia distinguir mais os borrões ao seu redor. Pode ouvir algumas buzinas que sumiram ao longe bem rápido. Chegou a uma avenida perpendicular à rua que estava e pedalou mais rápido antes que o sinal abrisse.

Só que no fim da avenida estava um parque. E depois vinha um lago.

Já não tinha mais controle da bicicleta e foi indo por entre as árvores, passando por crianças e cachorros curiosos (quase atropelou um poodle), ouvindo as folhas secas no chão estalarem. Se imaginou em um filme. Aliás, aquilo estava tão parecido com um que tinha assistido outro dia, onde um cara perde o controle da bicicleta e...

- Opa!

"Pof" foi o som que a bicicleta fez quando bateu em um tronco que servia de banco e capotou. Então ele voou bem em direção ao lago.

A água refrescante molhou cada centímetro de seu corpo mas ele não se importou. Aquilo foi como um banho. Lavou todas as suas preocupações de sua cabeça e de seus ossos cansados. Nadou até a superfície e encontrou um círculo de pessoas olhando para ele.

- Estou bem. ESTOU DE FÉRIAS! - ele gritou. Então começou a nadar de costas, sem se importar com a bicicleta quebrada, com lago não ser próprio para natação, com as pessoas que estavam se perguntando se ele estava bem da cabeça, com as crianças rindo e querendo se molhar também, ou com o fato de que seu certificado estava completamente encharcado em seu bolso.

Comentários

  1. Deu pra sentir a alegria e felicidade daqui dele ao entrar em férias...Que bom! um beijo,tudo de bom,chica ( onde viste o resultado?Não vi nada ainda! )

    ResponderExcluir
  2. Voltei pra te agradecer o carinho. Legal!obrigado,beijos e lindo fim de semana!chica

    ResponderExcluir
  3. Ah muito legal Lê. To de férias, êêê

    ResponderExcluir
  4. Adorei teu blog e estou te seguindo, caso queira seguir-me também, veja:http://asvozesdomar.blogspot.com/

    Feliz Natal!

    Abç!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Obrigada pela visita! Deixe um comentário e compartilhe com os amigos!

Postagens mais visitadas

Eu odeio gripe

Sabe, eu poderia falar de muitas coisas. Poderia falar do aquecimento global, das eleições, das pessoas babacas... Mas não.

Vou falar da minha garganta.

Porque estava indo tudo bem. O frio estava chegando sem nariz escorrendo, garganta inflamada ou coisa assim. Eu ia montar um altar pra alguém (não sei quem, mas ia) em comemoração a isso, porque é um milagre eu não ter ficado com absolutamente nenhuma marca da mudança de tempo.

Mas então hoje, do nada, minha garganta ficou irritada.

Sabe quando fica difícil de engolir, coça, e parece que você poderia tossir para sempre? É assim minha situação agora.

Eu, pessoalmente, acho que é castigo. Porque, mentalmente, "caçoei" das pessoas que tinham ficado assim. Não foi bem um "ahaha, você está doente e eu não". Na verdade foi mais um "nossa, ele tá doente e eu tô na boa!".

E agora aqui estou.

E, sabe o mais cômico? Tá um frio do caramba e a única coisa que alivia minha garganta (comprovado por mim mesma ao longo do…

Real Demais

Caminhou tremulamente até a ponta. Olhou para baixo e viu o mundo. Estava tão no alto, tão superior às pessoas e carros minúsculos lá embaixo... Até os outros prédios pareciam pequenos. Resolveu sentar-se.

Sua espinha congelava enquanto se movia lentamente, para sentar-se. Precisou forçar tanto sua coluna para baixo que sentiu que ela era um pedaço de gelo quebrando-se. Seu braço estava arrepiado. Ela odiava alturas.

Não poderia arriscar olhar para cima, porque seria tão ruim ou pior. A imensidão sobre sua cabeça lhe causava arrepios, principalmente estando sentada em um lugar tão... instável. Se desequilibraria mais facilmente ainda.

Ficou parada um tempo, decidindo para que ponto olhar. Percebeu que manter a cabeça reta e os olhos baixos não lhe trazia aquela sensação... horrível. A cabeça girava, tudo ficava preto, o coração acelerava...

Tum. Tum. Tum.

Ela se virou e revistou a mochila. Tirou algo de lá e, lentamente, esticou uma perna para baixo. Depois se arrastou para frente co…

A História de Tudo

Havia uma rua, com árvores, e alguém a atravessava. Tudo ali era um pedaço de Universo.
Um pedaço da vasta história de tudo.
A pessoa que a atravessava. O chão. As árvores. O vento que soprava.

Cada átomo e molécula uma combinação de combinações em uma grande e infinita caixa de peças de montar. Encaixe como queira. Pegue um pouco de estrelas, um pouco de dente de sabre, um pouco de cometas, um teco de folhas de hortelã. Ali vai uma bicicleta.

Cada canto para o qual olhava, via uma infinidade de possibilidades.
Não viu aquela galáxia, velha conhecida, colidindo consigo.
No chão, riram. Ondas se propagando por todo o espaço. Ergueram-se. Sorriram.

Era nébula. Nefertiti. Pétalas de rosa e gotas de mar do pacífico.
Era asteroides. César. Marfim e casca de salgueiro.
A vastidão da amazônia na imponência de Júpiter, olho no olho.

O Universo. É. Simplesmente. Desde quando começou a ser. Sem mais, sem menos. Apenas reorganizando-se como uma lista de pensamentos, uma sucessão de pastas. Combinando-se…