24 dezembro 2010

Um Estranho Na Janela







Olhava para o céu. Os pés descalços tocavam as telhas frias do sereno e da noite. Seus olhos verdes rastreavam cada estrela com atenção. Soltava um muxoxo de reprovação cada vez que uma nuvem aparecia (apesar de isso acontecer poucas vezes, pois o céu estava muito limpo). Sempre se sentava no telhado da casa, bem em frente a janela do quarto, quando precisava se concentrar em algo. Ou, no caso, observar.

Felipe assistiu o céu durante toda a sua vida. Às vezes esperando coisas que nem ele mesmo sabia quais eram. Gostava particularmente do pôr do sol, principalmente no outono. Era sempre dourado, com algumas outras cores desconhecidas e iluminava as árvores (que já tinham as folhas secas avermelhadas e amareladas), que ficavam parecendo ouro. O pôr do sol era a hora da inspiração e concentração.

Depois, as manhãs. Era a iniciação. Gostava de ver o sol sair e dizer bom-dia a todos, era um alegre despertar para a vida que se seguiria antes do próximo sono. Além disso, do telhado ele podia ver as pessoas preparando café, pegando o jornal, dando comida para o cachorro, entre outras atividades matinais.

E então vinha a noite, quando ele refletia sobre o seu dia e seus sentimentos, enquanto assistia aquele tapete negro descer sobre todas as casas, colocando seus moradores para dormir. Para alguns a noite era o momento da agitação, mas para Felipe era do descanso e da reflexão.



Mas o garoto era mesmo muito criativo. Imaginava as coisas e então conseguia vê-las. Sempre fora assim. Até alguns anos, em que ele simplesmente perdeu essa habilidade. Não conseguia mais olhar o céu da mesma forma. Essa noite era Natal e ele varria o céu à procura do seu espírito Natalino perdido.

Até que, finalmente, aconteceu. Ouviu um barulho às suas costas e encontrou um trenó vermelho enorme com muitas renas, uma delas tinha até um nariz vermelho. Olhando para ele, com alguns presentes nas mãos, parado em frente à janela de seu quarto, com um pé meio para dentro, estava um estranho. Era velhinho e usava roupa vermelha, parecia até o...

- Papai Noel? - perguntou Felipe absurdado.
- Bom, é claro que sou eu, meu jovem! Como vai essa noite?
- Não tem mais graça, nada disso. Perdi o espírito, Noel.
- Ora, meu caro. É absolutamente compreensível. Você é um adolescente agora. Pessoas da sua idade estão entre crianças e adultos. Adultos não tem tempo para mim, para dizer a verdade. Crianças sim, se dedicam às coisas pequenas.
- Bom, você não parece lá muito pequeno, com todo respeito.

O velhinho sorriu, enquanto se equilibrava nos dois pés, ainda do lado de fora da casa.

- Você vai levar esses presentes para nós? - perguntou Felipe apontando os pacotes nas mãos do bom velhinho - porque eu não acredito mais em papai Noel, e meus pais sempre colocam os presentes da minha irmã, sabe...
- Tem certeza que são eles?
- Claro que tenho! Eu mesmo já os ajudei.
- Bom, então devo dizer que você também já foi Noel.
- AHN?
- Olhe, não importa de onde vem o presente. O ato de presentear, aquele sentimento que vem em seu coração nesse momento... você sabe o que é?
- Não.
- Espírito natalino.
- Aquela alegria, um certo orgulho, adrenalina... é isso?
- Fale como quiser, eu prefiro espírito natalino.

Papai Noel se sentou e pegou um biscoito do bolso. Ofereceu a Felipe, mas este recusou.

- Eu não entendo. Você não existe.
- Só se você acreditar que não - o velhinho sorriu.
- Devo estar sonhando.
- Se é assim que pensa...
- Para com isso!

Os jovens são assim mesmo. Explosivos, nunca conseguem se segurar. Muita gente gosta de culpar os hormônios. Mas a culpa bem que poderia ser toda a pressão da fase.

- O que procura, Felipe?
- Como sabe...?
- O que procura?

Felipe suspirou. Então respondeu.

- Não sei bem. Mas eu acho que quero continuar a ter aquela minha imaginação fértil, continuar a ter a alegria do Natal no coração. Agora tudo me parece tão... normal. Quero ser como as crianças que vejo nas janelas.
- Você olha pela janela, já é um começo.

Felipe olhou o velhinho de canto de olho, "deve estar maluco", foi o que pensou. Que raios seria isso de "olhar pela janela"?

- Você - continuou Noel - precisa abrir seu coração para as pequenas coisas que passam por você, coisas que por vezes estão escondidas e só seu coração poderá desenterrar.
- Coisas pequenas...
- Bom, acho melhor eu terminar meu trabalho.
- Como consegue visitar tantas pessoas em uma noite?
- Ora menino, já disse. Eu sou as pessoas. Estou dentro de cada um.

Felipe o assistiu entrar pela janela e, em poucos minutos, sair da casa. Sentou no trenó e disse ao rapaz:

- Você pode se afastar um pouco, por favor? As renas precisam de espaço para decolar. - Felipe o fez.
- Por que apareceu para mim hoje?
- Porque você estava precisando - ele sorriu - boa sorte, menino. E um feliz Natal.

Então ele viu papai Noel voar pelos céus. Se sentou no telhado novamente e ficou refletindo. Depois de certo tempo, um brilho dourado começou a surgir no céu e, pouco a pouco, o sol foi despertando. Foi escutando aqui e ali os gritos de alegria das crianças das casas vizinhas, ao descobrirem que o bom velhinho as visitara. Felipe viu pelas janelas das casas os olhos e sorrisos brilhantes dos pequeninos e a alegria dos pais em ver seus filhos tão felizes.

Foi assim que, sem saber exatamente como ou por que, Felipe soube que o espírito voltara e que aquele estranho na janela de seu quarto continuaria em todas as janelas de todos os quartos enquanto ainda houvesse alguém disposto a recebê-lo.

Se levantou e entrou em casa para acordar a irmã e os pais e desejar um feliz Natal.

Editado (27/10/11) Leia a segunda parte dessa história: Outro Estranho Na Janela

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3 comentários:

  1. eu gostei, na verdade gostei muuito, eu tbm fiz um texto sobre a edição visual do bloínquês, mas eu acho qu vc merece ganhar, pois o seu texto se encaixou perfeitamente com a epoca, e euu bom eu fiz um texto comum meio melo dramatico sobre amor, quero muito que vc ganhe hihihih bjuss e feliz natal ;*

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  2. Nossa, que texto bonito e profundo. Me lembra o Pequeno Príncipe e seu carneiro.
    Bom pra sempre lembar que imaginar como uma criança é bom.

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  3. Mano, ficou foda. Sério, alem de criativo faz pensar, faz as pessoas lembrarem de quando realmente eram felizes, e queriam ser oque hoje são hoje. Mas todos querem ser oque eram antes *-*

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