14 janeiro 2011

Baunilha com Maresia


Parado ali, sentiu primeiro o sopro do mar que sussurrava algo, mas parecia ser em outra língua. Ou em todas. O dono do sopro se chocava com as pedras calmamente. Qualquer um temeria um encontro, mas ele sabia que era inevitável. Então se chocava e se quebrava em espuma.

Havia um horizonte naquele momento. O céu era sorvete de cereja, com nuvens de marshmallow. O oceano era sua taça. As pedras eram a colher.

Respirou fundo e pôde sentir o cheiro: baunilha com maresia. A baunilha não era do tipo que coçava o nariz, pois tinha o sal do mar. Ela vinha das velas, expostas ao redor da cama. Eram pequenas vigiadoras para quem quer que se acomodasse no móvel de madeira com colchão macio. Haviam cortinas de seda.

Sentiu a frieza da pedra com um pouco de grama em seus pés. Se dirigiu à cama, sentindo a areia, e sentou-se.

O vento soprava seus cabelos, suas roupas brancas e a cortina de seda. Recostou-se nos travesseiros e esperou pacientemente. Logo, apareceu.

Era uma sombra, apenas. Não se deixava ver. A sombra sorriu e perguntou alguma coisa. O que é que ela está falando?

- Não entendo...
- O que faz aqui?

Pensou um tempo sem encontrar uma resposta. A sombra se moveu para sua lateral e entregou-lhe um sopro nos ouvidos que tinha som de "pense a respeito".

- Acho que estou sonhando.
- Muito bom - sibilou.

A sombra apareceu por entre a seda. Tinha um rosto, apesar de não saber à quem pertencia. Era um rapaz de cabelos e olhos escuros e sorriso brilhante. Se parecia um pouco com ele mesmo. Ou muito. Quando ia perguntar quem era, o garoto disse:

- Sua Consciência. Veio longe dessa vez, Sonhador. - e riu uma risada de folhas secas.

Piscou duas vezes, olhando sua Consciência.

- O que há?
- Você viajou um mundo para chegar até aqui. Poucos chegam. Mais um pouco e você se desprenderia...
- Eu vou morrer?!
- Não! Calma, que garoto histérico, credo. - disse a Consciência, sentando-se ao seu lado. - Agora, me diga, o que andou fazendo ultimamente?

Olhou para frente, a eternidade de areia e pedras e teve um vislumbre de sua vida vazia e insignificante.

- Não acha que está na hora de fazer algo diferente? - a Consciência perguntou, despreocupadamente.
- Eu acho que...
- Nunca ache nada. Você não está procurando, está? Você vai mudar ou não? Uma pergunta simples.
- A pergunta é simples, mas colocá-la em prática é que é complicado.
- Para quem quer mesmo fazer alguma diferença, nunca é complicado.

O Sonhador balançou a cabeça e voltou a olhar para a paisagem.

O vento era frio, mas algo naquele céu de sorvete o aquecia. Então começou a derreter até a cereja se misturar ao marshmallow. O Sonhador adormeceu.

E acordou num mundo onde não existem céus de sorvete, nem nuvens de marshmallow, ventos sussurantes, camas de seda ou baunilha com maresia.

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4 comentários:

  1. Que linda ficou tua participação.Parabéns!beijos,chica

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  2. lindo, lindo e lindo, sempre arrasando néh miga hihih*.*

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  3. Você. É. Demais. Sem mais.

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  4. Adoro textos com sobras e sonhos. A figura da sombra dentro da psicologia jungiana é muito importante nesse contexto. Parece que conhece um pouco, ou que teve ao menos algum tipo de contato, ou segundo Jung, o inconsciente coletivo lhe levou a esse texto. De qualquer forma gosto muito dele.
    Aliás, eu fiz um texto muito parecido, que nunca terminei na verdade. Torna ainda mais interessante ler esse.

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