09 janeiro 2011

Um Livro Real

Estamos em uma cidade praiana de São Paulo. À uma quadra da praia e do canal, há um prédio verde e cinza.

Olhe para os lados e suba até o sexto andar.

Tem uma garota sentada em sua cama com lágrimas escorrendo pelo rosto, digitando alguma coisa. Ao seu lado jaz um livro branco.

A chuva cai quente e em diagonal, do lado de fora. O cheiro de praia e jardim molhados entra pela janela. O sol brilha, mesmo assim.

Tomada pelo ritmo e palavra do livro, ela escreve naquele estilo. É sempre assim, quando termina algum bloco de papel: ela fala e pensa do jeito que as palavras soavam. Ela é um eco.

Despejava as palavras como baldes de água fria nas teclas de seu computador. Chovia no quarto, chovia na rua. Em algum lugar ouvia-se música em inglês com sotaque italiano. Mas isso pouco importava. Só o livro branco, logo ali ao lado, era o foco.

Seu peso estava no coração da garota e forçava tudo para baixo: as lágrimas, a felicidade, a tristeza, as palavras...

Parecia conveniente começar a chover uma chuva de verão logo após a última frase do livro, enquanto a torneira de lágrimas se escancarava. Uma típica cena de livro. A garota na fossa enquanto as lágrimas do céu molhavam as calçadas e a areia da praia.

Como uma história de guerra pode mostrar cores e palavras? Como pode ensinar o prazer da vida em meio a bombardeios? Uma história de guerra com personagens tão humanos. Uma história narrada pela morte.

É meio irônico. Me parece que a morte levou embora o livro. Sei que ele continua ali do meu lado, é só abri-lo e lê-lo. Mas, mesmo assim...

Ele me despejou momentos de alegria, de reflexão, lições. Foram sussurradas, as vezes pela ceifadora, as vezes por um garoto de cabelos cor de limão, ou um homem-acordeão com olhos de prata, a mulher que parecia um armário, o judeu de cabelos de pena...

Como pode um livro ser tão real?

As palavras foram ditas duas vezes. Agora estão sentadas confortavelmente na cama, esperando por uma terceira dose. Enquanto isso, a garota as digere.

De todas as lições aprendidas, a mais impressionante e real é que o homem tem o belo e o feio em si e é capaz das coisas mais inimagináveis. Com palavras que se plantam pode-se mudar o mundo. Não devemos segurar nossos impulsos, esperando que teremos outra chance mais para frente. Pequenas coisas podem fazer de um verão o melhor de nossas vidas. A cada momento podemos ver uma cor no céu, que será o retrato perfeito para ilustrá-lo mais tarde.

Com todas as considerações que a garota fez, sentindo em seu peito a dor amenizar e um redemoinho de palavras nascer na boca sem conseguir colocá-lo para fora, ela teve que concordar com as últimas palavras ditas pela morte, no livro.

Os seres humanos me assombram.

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Um comentário:

  1. Adorei. Como pode você escrever TÃO bem!? Me mata.

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