01 março 2011

Mulher-Foguete





A música soava nostálgica. Pessoas sentadas em fileiras, acomodadas. Não sentiam frio nem calor, não sentiam solidão mas tampouco tinham companhia. Ela tinha o sol no rosto, os fones nos ouvidos e o coração na cidade logo ali, abaixo deles.

Fazia tanto tempo. Anos. Fora embora para uma luta sem sentido e deixara a menorzinha, tão pequena e frágil, com o pai e os avós. Disse ao mais velho que tomasse conta dela, mesmo sabendo que ele era muito novo para tal responsabilidade. Imaginou-os crescendo com uma foto e um aperto no coração que dizia que estavam bem.

Lutou todos aqueles cinco anos com garra e vontade. Viu homens e mulheres sofrendo, viu sangue, viu desordem. A morte a seguia como uma sombra. Não era bem-vinda, mas era recebida constantemente no alojamento ou em qualquer outro lugar em que estivessem.



Era frio a noite, era frio de dia. Explosões de gelo. Queria o calor e queria logo. Chorava constantemente, pensando em seu marido e sua pequenina que já poderia estar andando. Pensava no seu garotinho que estava aprendendo a ler quando o deixou, agora tão moço. Sentia falta de todos eles. E colocava toda a sua saudade em seu trabalho, uma força estimulante, para poder continuar. Ela não acordava e ia à luta, mas sim decolava como um foguete.

Se tornou um vício. Assim como pessoas que se exercitam demais não conseguem passar um dia sem fazê-lo, a saudade se apossou de tal forma de seu coração que não conseguia mais não senti-la.

Então, um dia, trocando as bandagens de um bom guerreiro, lhe disseram que teria de se despedir das saudades e ir para casa. A solidão a acompanharia apenas até o aeroporto, onde seria recebida pela alegria.

Primeiro sentiu o choque percorrer sua espinha, e depois uma excitação tamanha que não conseguiu nem se mexer. O normal para qualquer um é gritar e pular. Ela simplesmente chorou silenciosamente e olhou para a foto de sua família, durante a noite toda.

Estava agora no avião, com aqueles passageiros acomodados ao seu redor e os comissários de bordo sorrindo alegremente para todos. Eles não sabiam nada da vida, não haviam visto nada. Não tinham visto a vida surgir e ir embora em frente aos seus olhos. Eles apenas voavam sem rumo, sem saber o que passava por eles.

Quando você passa pelo que passei, pensou, o mundo é visto de forma diferente.

A música do homem-foguete continuou tocando e tocando em sua cabeça enquanto descia do avião e, depois, quando se preparava para pegar sua mochila. O fato de vestir um uniforme camuflado e uma mochila enorme do exército americano não interferia na atenção das pessoas voltadas para seus pequenos afazeres.

Ela saiu atônita até os portões onde sua família estaria esperando para levá-la para casa. Olhou ao redor, a procura de um rosto conhecido que fosse.

Não era difícil encontrar seu marido, já que era alto e tinha exatamente o mesmo rosto de cinco anos antes, apenas com uns poucos fios grisalhos. Ele sorriu abertamente e acenou. Ao seu lado estava um garoto alto, quase em seu ombro, com os cabelos iguais aos do pai. No colo do homem, uma garotinha sorria timidamente, com o dedo na boca.

Paralisou em seu lugar, ao vê-los. Não percebeu, logo atrás, a irmã e os pais. Só tinha olhos para as crianças e o marido. Este colocou a garotinha no chão, que correu na direção da mãe.

Se largou no chão, de joelhos, enquanto abraçava a menininha. Sentiu em seu coração toda a dor dos soldados que cuidou na guerra. Mas era um sentimento positivo. Era bom. Finalmente podia abraçar sua menina, depois de anos, e saber que ela realmente estava segura. Podia sentir seu cheiro de criança e seus bracinhos ao redor de seu pescoço. Sentiu calor, finalmente.

Chorou como nunca antes na vida. Não se importou se alguém finalmente notou sua presença, não se importou se as coisas lá fora continuavam tão erradas, com tanto sofrimento. Sua guerra havia acabado, ela havia vencido: estava em casa.

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