Pular para o conteúdo principal

Mulher-Foguete





A música soava nostálgica. Pessoas sentadas em fileiras, acomodadas. Não sentiam frio nem calor, não sentiam solidão mas tampouco tinham companhia. Ela tinha o sol no rosto, os fones nos ouvidos e o coração na cidade logo ali, abaixo deles.

Fazia tanto tempo. Anos. Fora embora para uma luta sem sentido e deixara a menorzinha, tão pequena e frágil, com o pai e os avós. Disse ao mais velho que tomasse conta dela, mesmo sabendo que ele era muito novo para tal responsabilidade. Imaginou-os crescendo com uma foto e um aperto no coração que dizia que estavam bem.

Lutou todos aqueles cinco anos com garra e vontade. Viu homens e mulheres sofrendo, viu sangue, viu desordem. A morte a seguia como uma sombra. Não era bem-vinda, mas era recebida constantemente no alojamento ou em qualquer outro lugar em que estivessem.



Era frio a noite, era frio de dia. Explosões de gelo. Queria o calor e queria logo. Chorava constantemente, pensando em seu marido e sua pequenina que já poderia estar andando. Pensava no seu garotinho que estava aprendendo a ler quando o deixou, agora tão moço. Sentia falta de todos eles. E colocava toda a sua saudade em seu trabalho, uma força estimulante, para poder continuar. Ela não acordava e ia à luta, mas sim decolava como um foguete.

Se tornou um vício. Assim como pessoas que se exercitam demais não conseguem passar um dia sem fazê-lo, a saudade se apossou de tal forma de seu coração que não conseguia mais não senti-la.

Então, um dia, trocando as bandagens de um bom guerreiro, lhe disseram que teria de se despedir das saudades e ir para casa. A solidão a acompanharia apenas até o aeroporto, onde seria recebida pela alegria.

Primeiro sentiu o choque percorrer sua espinha, e depois uma excitação tamanha que não conseguiu nem se mexer. O normal para qualquer um é gritar e pular. Ela simplesmente chorou silenciosamente e olhou para a foto de sua família, durante a noite toda.

Estava agora no avião, com aqueles passageiros acomodados ao seu redor e os comissários de bordo sorrindo alegremente para todos. Eles não sabiam nada da vida, não haviam visto nada. Não tinham visto a vida surgir e ir embora em frente aos seus olhos. Eles apenas voavam sem rumo, sem saber o que passava por eles.

Quando você passa pelo que passei, pensou, o mundo é visto de forma diferente.

A música do homem-foguete continuou tocando e tocando em sua cabeça enquanto descia do avião e, depois, quando se preparava para pegar sua mochila. O fato de vestir um uniforme camuflado e uma mochila enorme do exército americano não interferia na atenção das pessoas voltadas para seus pequenos afazeres.

Ela saiu atônita até os portões onde sua família estaria esperando para levá-la para casa. Olhou ao redor, a procura de um rosto conhecido que fosse.

Não era difícil encontrar seu marido, já que era alto e tinha exatamente o mesmo rosto de cinco anos antes, apenas com uns poucos fios grisalhos. Ele sorriu abertamente e acenou. Ao seu lado estava um garoto alto, quase em seu ombro, com os cabelos iguais aos do pai. No colo do homem, uma garotinha sorria timidamente, com o dedo na boca.

Paralisou em seu lugar, ao vê-los. Não percebeu, logo atrás, a irmã e os pais. Só tinha olhos para as crianças e o marido. Este colocou a garotinha no chão, que correu na direção da mãe.

Se largou no chão, de joelhos, enquanto abraçava a menininha. Sentiu em seu coração toda a dor dos soldados que cuidou na guerra. Mas era um sentimento positivo. Era bom. Finalmente podia abraçar sua menina, depois de anos, e saber que ela realmente estava segura. Podia sentir seu cheiro de criança e seus bracinhos ao redor de seu pescoço. Sentiu calor, finalmente.

Chorou como nunca antes na vida. Não se importou se alguém finalmente notou sua presença, não se importou se as coisas lá fora continuavam tão erradas, com tanto sofrimento. Sua guerra havia acabado, ela havia vencido: estava em casa.

Comentários

Postagens mais visitadas

Chá de cadeira

Se não quer tomar um, não leia. Eu falei pacas kk
Já ouviu essa expressão, chá de cadeira? É quando você fica muito tempo sentado esperando alguma coisa. Pois é. Ontem experimentei as delícias (ou não) de um chá de cadeira.
Guarda isso na cabeçinha. Arquivou? Beleza, vamos continuar.
Sabe quando você assiste aquele filme ou série de médico (tipo House, haha, amo) e você pensa "cara, como será que é trabalhar aí?!". Não digo na série filme, digo no hospital. Eu já pensei muito isso. Seria bem legal experimentar um corre-corre de hospital, ver como é um corpo humano DE VERDADE, sem esquemas em livros, ver médicos, ter os conhecimentos de médicos... seria tudo! Mas medicina não é pra mim, sabe, é tenso ter a vida de uma pessoa nas suas mãos. Muita responsabilidade.
Agora, lembra do que você tinha arquivado, do chá de cadeira? Não lembra? Ok, lê o começo do post de novo pra lembrar. Lembrou? Ok, então vem comigo.
Ontem fui com minha mãe para o hospital porque ela não se sentia …

A Música da Estrada

Lá estava ele novamente na estrada, caminhando tranquilamente e olhando ao redor. Na mão a maleta com o seu melhor amigo e companheiro de profissão: o violão. Não era nada demais, não. A marca não era daquelas mais caras e já não era tão novo. Mas cuidava tão bem do dito cujo... Sentava-se e limpava-o, afinava-o, olhava com paixão. Era o filho dele, a mulher de sua vida, seu pai, seu irmão. Era o mundo em suas mãos, ao seu comando.

Espera... Eu disse que o violão estava ao seu comando? Ah, nem o músico sabia quem comandava o que ali. Quando começavam com uma nota e não paravam nunca mais, ele tinha bastante certeza de que era um trabalho no qual os dois pensavam juntos.

O músico mandava apenas no caminho, pois era ele que tinha as pernas. E, sendo assim, escolhia as platéias. Tive sorte de ser uma delas. Caminhava, apenas, disseminando seu dom. Ensinava uns aqui e outros ali. Nunca parava. Diziam a ele que iria explodir se continuasse assim. Mas era do que ele vivia e do que gostav…

Hoje é o Seu Dia, Que Dia Mais Feliz!

Muita gente critica festas de crianças. Pessoalmente, acho que há mais para se elogiar do que para se criticar. Veja bem, quem não gosta de uma boa e velha bolinha de queijo? Tudo bem, velha talvez não (sabe, porque comer coisa mofada não é bom, confie em mim), mas ela é boa, muito boa. Festa de criança sempre tem essas comidas gostosas e elas fazem valer a pena.

Sempre que a festa é em buffet tem um determinado brinquedo legal que adulto pode ir. E aí é a hora de todo mundo que já passou da idade se juntar e usar o brinquedo, gritando e fazendo a maior bagunça. Um desses é o "la bamba", um hit da atualidade, um disco com cadeiras onde as pessoas sentam e ficam girando repetidamente. Acredite, é divertido. Claro que, criança ou adulto, alguém sempre tenta surfar e é aí que vemos uma criatura rolando pelo chão do brinquedo enquanto um monte de outras criaturas riem da cara do pobre coitado. Pois é.

E, pra finalizar, os doces. Ah, esperar as quatro horas, o parabéns com direit…