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Dolce Far Niente


Fazia dezessete graus, mas com certeza a sensação devia ser, no mínimo, de quinze. Apesar disso, o sol brilhava pela janela, suave e acolhedor. Segurava fortemente a cesta de vime em uma mão, enquanto guiava a bicicleta com a outra. Subiu no seu transporte e pedalou pela área, até se afastar o máximo. Depois de quase meia hora, já quase tendo perdido de vista a casa, encontrou uma acolhedora árvore. Era alta e fazia uma leve sombra.

Usava um vestido verde muito bonito de cetim. O cabelo arruivado e cacheado caia-lhe pelos ombros. Largou a bicicleta apoiada no tronco da árvore e abriu a cesta, pegando uma toalha xadrez e esticando no chão, onde a luz morna do sol de inverno pudesse esquentá-la. Vasculhou na cesta pelo pão, o queijo, as taças e a garrafa. Seria um ótimo banquete.

Fechou os olhos sentindo a brisa fresca que soprava. Olhou a bela paisagem. A grama crescia pelo campo aberto, vistosa. Árvores aqui e ali, grandes e imponentes, perdiam suas folhas para a estação. O céu tinha aquele tom azul que gostava e quase sem nuvens. A luz era dourada. Um cheiro bom de verde a cercava. Sentia a grama embaixo da toalha. Aquele ambiente natural era seu melhor conforto.

- Me arrumei especialmente para a ocasião. Coloquei meu melhor vestido, como pode ver, e fiz a maquiagem que você mais gosta, para realçar meus olhos, vê? – ela disse para os ventos e si mesma.

Pegou a faca e começou a partir o queijo. Comeu um cubinho de queijo enquanto olhava solene para o pão. Depois o pegou e partiu em dois, lentamente, observando cada migalha que caía. Pousou uma metade e mordeu delicada e voraz a outra parte em suas mãos. Sentiu o gosto da massa em sua boca, de olhos fechados. Depois pegou uma taça com o suco de uva e bebeu. Sorriu, iluminada.

Era seu ritual pessoal. Um momento para estar com sua melhor companhia e esclarecer as coisas. Ou não esclarecer nada. Era apenas comer, sentir a natureza e sentir-se bela e feliz. Há muito precisava disso.

Vasculhou novamente na cesta e pegou morangos e uma pasta que ela mesma fizera de chocolate e avelã. Mergulhou o morango no chocolate e observou a obra de arte. Era sexy, era delicioso e parecia muito absurdo comê-lo. Mas ele a olhava e dizia “me coma!”. E comeu. Era parte de seu ritual, também, ter o prazer de provar algo tão maravilhoso.

Após divertir-se com a sua refeição, olhou para o horizonte. A casa misturava-se às outras e às montanhas ao fundo. Tudo ganhava o brilho dourado do sol que começava a se pôr. Estava esfriando mais, mas ela não se importou. Pegou mais uma taça e bateu-a na outra, cheia para ninguém.

- Um brinde – disse ela erguendo os olhos e a taça para o dourado do céu – para o doce fazer nada.


Esse texto ia ser mandado para o bloínquês, mas como sou muito esperta eu perdi o prazo. De qualquer forma, aproveite. E comente.

Comentários

  1. A Down of Math: É incrivel como eu sentia o gosto e a textura das coisas em quanto eram descritas no texto.
    Mas o que mais me impressiona é a temática, a autora demonstra uma grande imaginação para com seus textos, sempre conseguindo se expressar através dos mesmos, meus singlos parabéns.

    P.S.: Na frase "Um brinde, para o doce fazr nada" O sujeito esta de férias.

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  2. Tão bem descrito que...








    ... deu fome

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