27 outubro 2011

Outro Estranho na Janela

Leia a primeira parte dessa história: Um Estranho Na Janela  
Texto para a oficina criativa do colégio, inspirado na imagem de uma edição do Bloínquês que não consegui participar porque não consegui escrever o texto a tempo.
Dedicado aos Chapeleiros e Alices do mundo.

O sol dourado de outono brilhava a meio caminho do chão. A moça sentava-se em uma telha mais macia, no telhado de sua casa. Usava um vestido confortável e tinha os pés descalços. Largou o pequeno livro amarelo que lia no peitoril da janela e viu as árvores se espreguiçarem.

Nas casas ao redor, cachorros latiam para os donos que chegavam mais cedo. Crianças vinham sorrindo da escola. Um dia comum e pacato.

Alice gostava de sentar-se no telhado desde a noite em que seu irmão disse ter visto Papai Noel na janela. Fora tão surpreendente ouvir Felipe dizendo aquilo, já que ele costumava ser tão chato e estraga-prazeres, que seu passatempo virou sentar-se no telhado e esperá-lo.

Mas um dia todos crescem e Alice parou de acreditar em Noel e outras coisas. Olhava para sua vizinhança e via a cidade além, com todos aqueles prédios altos que parecem se esticar para alcançar o céu inalcançável, aquelas formiguinhas de terno andando de um lado para o outro atarefadas, sem sequer perceber a luz ou as estrelas os cercando. Não sabem o quão doce soa o violino em uma bela noite de lua cheia, com macarrão para a janta.



Lembra-se, então, do fato de que são poucos os que apreciam as simples e belas artes da vida. E é quando se lembra disso que vê que ela mesma não sabe mais fazer tudo isso e que ela já não acreditava tanto em seu potencial. Ela só tinha cabeça para livros escolares que entulhavam a sua frente (pareciam tanto com os prédios da cidade!). Só quando tinha tempo de sentar-se no telhado é que ela conseguia ver o quanto da vida estava perdendo. Seus momentos de não preocupar-se com o futuro e com estudos (e todas as outras coisas de pessoas grandes) eram tão raros.

Desenho by Letícia Wilhelm
Ouviu um barulho ao lado e virou a cabeça. Ali estava uma figura realmente excêntrica. Usava um terno de veludo azul com calças xadrez de marrom e vermelho, tinha olhos muito esbugalhados e uma cartola alta na cabeça. Assobiava displicentemente. Virou seus olhos penetrantes na direção da garota e abriu um sorriso que, bizarramente, lembrou-a de queijo.

- Quem raios...
- Qual a semelhança entre um corvo e uma escrivaninha?
- Ahn?
- Bom dia! - estava do lado de dentro da casa, com os braços apoiados no peitoril e agora batucava alegremente os dedos - Ou será boa tarde? Não importa! Acho que já podemos acender as velas, hoje é seu desaniversário, certo?
- Como? Quem é você?
- Ora! Quem sou eu? - o homem riu abobalhado. Depois começou a franzir o cenho - Verdade, quem sou? Serei eu o Coelho Branco, sempre na hora? Serei eu o Gato com aquele sorrizão? Só espero não ser a Rainha de Copas... não pelas cabeças, veja bem, só não acho que corações vermelhos me caiam bem...
- Você está de brincadeira não é? Você não pode ser o Chapeleiro!
- Sou, sou sim. Pelo menos eu era. Não é?

Alice olhou o livro embaixo do cotovelo do Chapeleiro e piscou algumas vezes. Devia estar lendo muito.

- Estou imaginando você, certo?
- Não sei. Mas se estiver algum motivo tem, não é mesmo? Então, quer chá?
- Chá?
- Sim, é bom pra refrescar as ideias da cabeça... apesar que já nem sei mais se tenho cabeça, que dirá ideias! - E gargalhou mais uma vez.
- Estou louca, não é?
- Você é louca, louquinha. Mas vou contar um segredo: as melhores pessoas são.

Alice franziu as sobrancelhas. Mas teve que se segurar para não rir: Chapeleiro agora tentava sair pela janela e sentia uma certa dificuldade, estava todo torto. A menina se levantou e puxou-o para fora. Eles se sentaram no telhado e Chapeleiro perguntou:

- Porque está aqui sozinha.
- Pensando. Nos meus problemas.
- Pensar não é bom, não mesmo... Pensando bem, pode até ser sim... Espere, problemas?
- Não aguento mais não sorrir e rir com a vida, só me preocupar. Estou virando mais uma... - formiga da cidade, pensou. Chapeleiro pareceu estranhamente sério por um momento antes de olhar por cima do ombro da garota e dizer:

- Olhe aquele homem. Não, espere, não olhe agora, vire-se para mim, vamos conversar.
- Tá bem...
- Você é?
- Alice?
- Me pergunta por que? Se é, é. Você que tem que saber, não eu.
- Sim, sou Alice!
- Como?
- Sou Alice! - quase berrou.
- O que você quer, Alice?
- Quero ter um futuro promissor.
- Certeza?
- Sim... Não. - Olhou ao redor e ao ver o livro amarelo disse - Quero viver num mundo de maravilhas.
- E porque não está fazendo isso agora?
- Que caminho devo tomar?
- Não sei. Qualquer caminho que você tomar pode te levar pra qualquer outro lugar. Você que tem que escolher.

Alice suspirou.

- Aquele homem parece saber das maravilhas que o cercam. - ele apontou de novo o tal homem.

A menina olhou para onde o Chapeleiro maluco apontou e viu, lá embaixo, seu irmão, Felipe, brincando com o cão. Ria como as crianças quando chegavam em casa e corriam para brincar mais um pouco. Se jogava no chão com o cachorro e parecia mais um menino do que um jovem adulto com grandes responsabilidades.

- Não tinha um tipo de bolinho que fazia encolher? - perguntou Alice.
- Bolinho que faz encolher? - o Chapeleiro gargalhou - Você é doida, é? Pensa que isso é um mundo das fadas?
- Mas você está aqui!
- Estou porque você quis que eu estivesse. Você inclusive me tirou pela janela. Se quer encolher, é só isso que precisa. Querer.
- Tá. E se eu quisesse voar? Isso é impossível.
- Só porque você acredita que é.

Alice bufou em meio a um sorriso. O Chapeleiro ergueu o chapéu, correspondendo com um sorriso engraçado. Lá de baixo, ouviu o irmão chamar:

- Alice, sai do telhado e vem jantar!
- Já vou! - mas quando se virou para despedir-se do Chapeleiro, ele já havia voltado para o livro ou seja lá de onde ele tivesse vindo.

A garota demorou um pouco para descer. Olhou a noite se estender sobre as árvores, mas algo ainda brilhava dourado. Talvez fosse seu sorriso. Coisas tão impossíveis haviam acontecido que a menina já podia olhar suas obrigações de moça como algo muito fácil de realizar.

Então entendeu o que Felipe quis dizer quando ela era uma garotinha e ele vira Noel na janela. Porque agora Alice tinha a mesma sensação de liberdade e um novo ânimo a atingiu quando soube que dentro de seu bolso sempre haveria uma dose de bolinho que faz encolher.

Levantou-se e, olhando mais uma vez pela janela, entrou e foi jantar, pronta para perguntar qual a semelhança entre um corvo e uma escrivaninha. Ela não fazia ideia, mas, sinceramente, de que importava?

Comente com o Facebook:

2 comentários:

  1. Excelente texto que custou para ser lido, uma vez que não encontrava tempo para acessar este blog tão especial. Só para variar um pouco! ;)
    Parabéns! O grande risco de ficarmos sobre o telhado é que podemos ser atingidos pelos projéteis de uma pomba maluca! =)

    ResponderExcluir
  2. Oun, que lindo *-*

    ESTOU RINDO MUITO DESSE NEGÓCIO DA POMBA!!!

    ResponderExcluir

Obrigada pela visita! Deixe um comentário dizendo o que achou! :)