07 dezembro 2011

Capítulos da Vida

Algumas pessoas me dão vontade de saber o que vem a seguir. Como um livro. Eu as olho e, depois, fico com uma eterna curiosidade para saber o que acontecerá com elas; só que, diferente de um livro, não tenho como ir para a próxima página e descobrir. Tenho que me contentar com uma simples sinopse, um pequeno parágrafo.

Lembro-me  de algumas que me trouxeram essa sensação. A primeira é o homem sentado na frente da vitrine de uma livraria, olhando os livros. Um mendigo. Não sei se estava chapado ou louco ou lúcido. Não li a introdução. Mas também não sei se algum dia alguém teve a bondade de perguntar-lhe se gostaria de um livro. Por que não? Ele pode ter sido um homem culto e importante que perdeu tudo, todas as suas páginas largadas em um canto para entupir bueiro; e então ele foi parar, afinal, em uma livraria, buscando o que perdeu e procurando o que estava por vir.

Uma história sem começo nem fim.

Outro episódio que me deixou com vontade de saber o que vem a seguir foi a mãe com a menininha, no ônibus. Eu estava no banco dos fundos e as vi subindo as escadas. A garotinha veio toda feliz e a mãe atrás, carregando a mochila, um cestinho e um presente. Entraram e sentaram-se em um banco. A menina entusiasmada com os presentes no cesto, a mãe conversando com ela... Imaginei que tivesse sido a festa de aniversário dela na escola. E então começou a chover, chover como se o céu estivesse devolvendo toda a água que as bocas secas precisavam. A mãe, com muita habilidade, pendurou a mochila de carrinho em um braço, segurou o cestinho com presentes em uma mão e desceu do ônibus, com a garotinha empoleirada no seu outro braço. Assim, foram mãe, filha e brinquedos apressadamente para casa.

Me pergunto o que aconteceu depois. Será que chegaram muito molhadas? Será que a menina iria passar a noite brincando com os presentes novos? Que será que a mãe fazia da vida? Me pergunto, também, se a menininha cresce saudável e se, quando fosse moça, iria querer brincar de passar batom com tanta frequência quanto no ônibus aquele dia, ou se gostaria de voltar no tempo e correr pela rua na chuva.

Será que as pessoas com quem brinquei por uma tarde na praia ou no playground ainda vão lá, ou será que perderam os velhos hábitos? Se eu for para meu antigo prédio, ainda encontrarei marcas de minha antiga bicicleta no chão?

Mesmo que eu volte aos lugares de minha infância e adolescência, não descobrirei o que foi escrito nas páginas dos que ali habitavam; minha mente é que terá de reviver o momento e fingir um futuro. Imagino que essas pessoas nem sequer lembram-se de mim agora.

De qualquer forma, tem algumas pessoas que escreveram no meu livro que minha curiosidade será mais forte: não vou deixar de perder um só capítulo de suas vidas.

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Um comentário:

  1. Gostei!! Você aborda a sociologia de um jeito reflexivo!! Muito legal!! c=

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