28 novembro 2011

Tempestuosamente


Ploc, ploc, ploc.

Pisava no chão molhado com vontade, apressada. Se piorasse, não ficaria nada bonito.

Ploc, ploc, ploc, ploc.

Apressou-se. Faltavam tantos quarteirões. E ainda teria que passar por aquela enorme avenida sem árvores ou toldos que lhe cobrissem.

Ploc, ploc, ploc, ploc, ploc.

Começava a ofegar levemente. Tirou os óculos, para não molhá-los, e assim parou de enxergar. Colocou o capuz na cabeça, mas isso não pareceu melhorar em nada os pensamentos que zuniam em seu cérebro, como se ele fosse uma colmeia. As gotas de chuva escorriam-lhe pelo rosto como lágrimas.

Ploc, ploc, ploc, ploc, ploc, ploc.

E se tudo, afinal, desse errado? E se suas escolhas e fossem erradas? E se virasse a esquina errada na hora errada? Tinha tanto medo de errar o caminho em meio aquele aguaceiro... Decisões eram o pior que poderia ser forçada a fazer. Essa decisão implicaria em tudo na sua vida. O que estava fazendo agora era como um guia: tinha que saber interpretá-lo.

Ploc, ploc, ploc, ploc, ploc, ploc, ploc.

Mas que droga! Antes faltava tanto tempo, e agora já pareço tão perto, pensou. Chegou na grande avenida e agora tinha que ter o máximo de atenção para com onde estava indo. Começou a desacelerar e olhar ao redor, apertando os olhos (esse ato lhe apertava também o coração). Precisava decidir logo.

Ploc, ploc, ploc, ploc, ploc, ploc.

Afinal de contas, o que mesmo estava em jogo? Sua felicidade ou a dos outros? Seja lá o que seus amigos pensassem, ou sua família pensasse, o que importava era ela. Tão facilmente influenciada, não sabia mais o que queria. Seu misto de sentimentos a doía. Mas, por que não, simplesmente deixar acontecer?

Ploc, ploc, ploc, ploc, ploc.

Porque quem faria o seu futuro seria ela mesma. Se fosse para chegar ao topo ou ao fundo, não importava onde virasse, no fim chegaria lá. Ela e somente ela tem o poder. Então, porque ligava tanto?

Ploc, ploc, ploc, ploc.

Estava caminhando bem devagar agora. Abaixara o capuz (o cabelo? Que molhasse!). Colocou os óculos, que logo pareciam precisar de um pára-brisas. Mas nem se importou. Pela primeira vez em muito tempo enxergava maravilhosamente bem.

Ploc, ploc, ploc.

Seus passos agora estavam leves e descontraídos. Sabia a verdade agora, é claro. Andava desligada e seus pés a guiavam: que a levassem para onde quisesse.

Ploc, ploc.

Chegou, finalmente, a um complexo enorme com vários prédios. Imaginou que o outro teria sido ainda maior. Mas gostava de simplicidade. Afinal, estava andando na chuva. Percebeu que fazia muito tempo que não tomava chuva, e por um segundo aquilo pareceu-lhe belo.

Ploc.

Olhou para seu corpo e viu um casaco encharcado, uma mochila inundada e tênis ensopados. Deu de ombros. O máximo que aconteceria era alguém ter que secar o chão.

Um pequenino raio singelo de sol surgiu entre as nuvens. A garota entrou no prédio com a certeza de que, seja lá o que a esperasse, um belo entardecer ensolarado a esperaria na saída. Seria muito bom para se secar, pensou, depois daquela caminhada na chuva.




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7 comentários:

  1. Matheus Vasconcellos: Me impressiona o fato da Lets conseguir fazer um fato do cotidiano tão simples pelo qual todos já passaram se tornar uma obra reflexiva desta magnitude, incrivel.
    P.S: Adorei a forma como você escreveu esse texto, ele cai na gente fazendo Ploc Ploc

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  2. Let's muito bom. Um dia quero escrever tão bem assim como você. hehehe!! Nossa realmente faz refletir sobre nossas escolhas! Amei!!! Beeijinhos Camila

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  3. Acho que eu posso dizer que cada vez que leio um texto da Lets, eu acabo crescendo. Eu tenho um jeito meio dfdramático e romântico de escrever, já a Lets traz um singelismo normal e ao mesmo tempo reflexivo. Pode ter certeza, eu irei comprar seus livros, devorá-los e se Deus quiser, crescer com você, trabalhar com você e dividir o pouco que eu tenho com o muito da sua arte. Beijos, Raay. Adoreeeei mesmo tooodos os textos *-*

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  4. Math: Obrigada, adorei o "cai na gente fazendo ploc" *-*

    Camis: Obrigada, mesmo *-* me sinto honrada com você querer escrever como eu KKK

    Ray: Você acabou de acertar meu coração e fazê-lo derreter KKKK é muito importante pra mim ouvir (no caso ler) que meus textos fazem alguém crescer, de verdade. Você realmente não faz ideia. Também adoro sua escrita e espero de você tudo o que espera de mim hehe *-*

    Beijos yal, adoro vocês!


    Próximos leitores desse texto, aguardo seus comentários, irei respondê-los ;)

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  5. Carolina Fortunato07/12/2011 16:30

    Eu comecei a ler esse blog com a indicação da Rayanne *-* , e eu to A-M-A-N-D-O ! em especial esse texto que é um dos meus favoritos ! adorei como você escreveu sobre esse assunto , me fez refletir muito sobre as minhas decisões , hahahh. Muito sucesso pra você ! beijos :*

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  6. Carolina, muito obrigada! É legal saber que fiz você refletir :D Obrigada, de coração, continue vindo aqui se puder ;)

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  7. Das minhas palavras dois anos atrás, nada mudou. Engraçado né? Contudo, muito bom!

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