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Mostrando postagens de Dezembro, 2011

Desejo de Aniversário

Uma vela solitária queima sobre a cobertura de chocolate. Ao redor, estalos e vozes entoam uma canção. Mas o momento é dela, parada ali, curvada para a vela. Dizem "faça um pedido!". Que pedir, afinal?

"Peço um bom ano?", ela pensa. "Peço sabedoria, criatividade, maturidade, força, saúde, dinheiro...? Peço ajuda para minhas decisões? Peço paciência para com aqueles que me tiram ela? Peço coragem para enfrentar meus desafios? Peço paz de espírito? Peço sorte no amor? Peço mais sorrisos? Que tal pedir menos lixo nas ruas, menos árvores cortadas, menos águas poluídas, menos animais mortos? Menos pessoas sofrendo, menos pessoas morrendo de fome, menos violência... Que tal pedir menos maldade?"

Um suspiro. Parece tão egoísta desejar algo para si, quando tem gente precisando mais do que você de um desejo.

Como se outra vela se acendesse em sua cabeça, ela tem uma ideia. "Assopre logo", lhe dizem.

Fecha os olhos, para que a mágica funcione melhor. Ass…

Rosto Manchado de Tinta

A cidade era toda cinza. Era inverno e a Alemanha não tinha mais cor. A neve ainda não havia começado a cair, apesar do fogo já cair em outros lugares. As pessoas andavam apressadas pelas ruas. Um garotinho de boina e capa correu por entre pernas.

Havia um grupo de crianças morando em uma casa, todos órfãos, aos cuidados de uma senhora atarracada e de cabelos como algodão e uma moça esguia e loira, mãe e filha. Todo ano seu Natal era composto de uma sopa de legumes e uma barra de chocolate para cada uma das dez crianças. Roger cansara-se daquilo.

Naquela manhã, véspera de Natal, olhou pela janela e viu um caminhão sujo passando com alguns pinheiros. Correu escadaria abaixo, ignorando os gritos de "Ei, aonde vai, menino?!" e saiu porta afora. Correu pela sua ruazinha e chegou à rua perpendicular, muito maior. Correu entre as pernas das pessoas e foi até o monte de árvores para olhar. Ainda tinham neve, vindas de onde quer que tivessem sido tiradas. Roger abaixou e pegou um …

Uma Aula Sabor Café

Tive uma revelação para mim mesma de como o tempo passou e como foi rápido. Tenho certas lembranças que me parecem tão recentes mas que já se passaram a tanto tempo. Me lembro de como era olhar para pessoas do meu tamanho agora, quando era menor. Os via quase como Deuses. Hoje me vejo comum, sem nada demais; hoje eu recebo esses olhares. Parece até coisa de roleta, girando e girando...

Certa vez, esse ano, em uma reunião do clube de escrita no colégio foi dado como tema "leite com vodka". Usei leite como metáfora para a infância e a vodka para a adolescência. E então deixei em aberto o que viria a seguir. O grupo concluiu que seria café (mais tarde eu concluiria que, após o café viria o chá).
Então nessa fase em que estou vivo uma transição. É o fim de uma era, o começo de outra. Vou para o café. Sinto (como todos que estão nessa fase) uma expectativa e um medo angustiantes. Somos forçados a escolher o nosso futuro e tememos o que pode estar por vir. E, mais ainda, tememos n…

Resenha: Lobo Alfa - Helena Gomes

Tive a alegria de conhecer a autora do livro, Helena Gomes. Ela foi no meu colégio e pude conversar com ela sobre escrita e tudo o mais. Porém, isso foi antes de eu ler qualquer livro dela, o que me deixa muito triste por não poder falar pessoalmente minhas impressões sobre esse livro.
O primeiro ponto importante pra ressaltar: Santos aparece na história. E como eu sou de Santos, foi maravilhoso imaginar todos aqueles personagens em lugares que eu realmente conheço. Além disso, adoro como ela critica os americanos e sua geografia falha (por exemplo, brasileiros falam espanhol e Buenos Aires é no Brasil).
Mas, sobre o livro, quando comecei a ler não estava dando tanto pela história. Lobisomens, grande coisa, tem muito disso por aí. Só que, de repente, Helena mexe o tapete e nós tropeçamos em um pequeno mistério; depois, quando você acha que já está tudo certo e vai ser aquilo mesmo, ela coloca outra coisa na nossa frente e nós quase caímos. Ela adiciona obstáculos e mais obstáculos e nós…

Capítulos da Vida

Algumas pessoas me dão vontade de saber o que vem a seguir. Como um livro. Eu as olho e, depois, fico com uma eterna curiosidade para saber o que acontecerá com elas; só que, diferente de um livro, não tenho como ir para a próxima página e descobrir. Tenho que me contentar com uma simples sinopse, um pequeno parágrafo.

Lembro-me  de algumas que me trouxeram essa sensação. A primeira é o homem sentado na frente da vitrine de uma livraria, olhando os livros. Um mendigo. Não sei se estava chapado ou louco ou lúcido. Não li a introdução. Mas também não sei se algum dia alguém teve a bondade de perguntar-lhe se gostaria de um livro. Por que não? Ele pode ter sido um homem culto e importante que perdeu tudo, todas as suas páginas largadas em um canto para entupir bueiro; e então ele foi parar, afinal, em uma livraria, buscando o que perdeu e procurando o que estava por vir.

Uma história sem começo nem fim.

Outro episódio que me deixou com vontade de saber o que vem a seguir foi a mãe com a …