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Rosto Manchado de Tinta


A cidade era toda cinza. Era inverno e a Alemanha não tinha mais cor. A neve ainda não havia começado a cair, apesar do fogo já cair em outros lugares. As pessoas andavam apressadas pelas ruas. Um garotinho de boina e capa correu por entre pernas.

Havia um grupo de crianças morando em uma casa, todos órfãos, aos cuidados de uma senhora atarracada e de cabelos como algodão e uma moça esguia e loira, mãe e filha. Todo ano seu Natal era composto de uma sopa de legumes e uma barra de chocolate para cada uma das dez crianças. Roger cansara-se daquilo.

Naquela manhã, véspera de Natal, olhou pela janela e viu um caminhão sujo passando com alguns pinheiros. Correu escadaria abaixo, ignorando os gritos de "Ei, aonde vai, menino?!" e saiu porta afora. Correu pela sua ruazinha e chegou à rua perpendicular, muito maior. Correu entre as pernas das pessoas e foi até o monte de árvores para olhar. Ainda tinham neve, vindas de onde quer que tivessem sido tiradas. Roger abaixou e pegou um pequeno floco na palma de sua mão. Tirara a luva para tocá-lo. Sentiu o gelo derreter em suas mãos e sorriu. "Bem que podíamos ter neve logo, não?", pensou.



Vasculhou por entre as árvores uma boa o bastante. Haviam algumas enormes, com vários metros de altura. Ele tentou arrastar a maior delas, mas percebeu que não movia um galho. Suspirou algo como "isso não vai funcionar". Foi então que viu: era quase o dobro dele em altura, tão mirrada quanto. Sorriram um para o outro, cúmplices. Abaixou-se e abraçou os galhos, tentando erguê-la. Era leve, mas não tão fácil de levantar. O homem que trouxera as árvores viu o garoto e abaixou para ajudá-lo. Era forte, com cabelos loiros e olhos escuros.

- Obrigado! - disse o garotinho com voz aguda. - quanto é a árvore?
- Essa aí? - o homem olhou-a e sorriu, contendo uma risadinha - pode ser de presente.
- Valeu!

Roger teria corrido, mas não conseguia com a árvore em mãos. Andou, todo torto, até a casa. Quando estava na esquina de sua rua, viu os outros garotos e garotas órfãos que o esperavam na entrada de casa. Começaram a gritar, chamando a Sra. e a Srta. Friedrich. Ambas saíram também e a moça começou a rir com as crianças. Até a Sra. Friedrich, normalmente séria, sorria.

- Tínhamos que ter um Natal decente. - sorriu Roger, recebido como herói pelos amigos.
- Excelente, Roger! Precisamos agora arranjar uns enfeites. Mas como pagou a árvore? - perguntou Srta. Friedrich, agachada na frente dele.
- O homem me deu de presente.
- Oh, isso não está certo!
- Magina, moça, não precisa se preocupar - o homem estava logo atrás do menino e surpreendeu a todos. Srta. Friedrich levantou-se e Roger notou que ela olhava levemente abobalhada para o homem à sua frente.
- Muito obrigada, então, moço - disse Sra. Friedrich - crianças, para dentro, estão bagunçando na rua - tentou, mas foi ignorada.
- Como se chama? - perguntou o homem à Srta. Friedrich.
- Evelyn.
- Belo nome. Me chamo Richard. Ouvi que precisam de enfeites, posso arranjar alguns se quiserem.
- Eu tinha pensado que íamos fazer! - disse uma garotinha de tranças.
- Ótima ideia, Kate! - disse Evelyn.

Então todos foram procurar pinhas, sementes, papel, arame, tinta. Pintaram as sementes e recortaram papeis e penduraram com arames na árvore que decorara a sala. Richard deixara seu pai cuidando da venda das árvores e se juntara às crianças e Evelyn (com quem parecia estar dando-se muito bem). Sra. Friedrich cozinhava a famosa sopa com um sorriso satisfeito no rosto.

A tarde passou rápido, com muitas risadas e muitas manchas de tinta no rosto. A certa altura, Kate suspirou, enquanto pintava uma semente de vermelho, e disse:

- A gente podia fazer com que fosse Natal todo dia. Sabe, pintar, brincar, se divertir...
- Sim, poderíamos. Esta é uma ótima ideia, Kate. - disse Evelyn com olhos úmidos. Sonhava em dar para aquelas crianças algo bom, algo que as deixasse feliz. Não imaginaria nunca que com tão pouco teriam um dia tão belo.
- Ei! Está nevando! - Disse um garotinho mais perto da janela.

Sra. Friedrich não teve tempo de mandar todos vestirem roupas mais quentes. Em segundos, não só as crianças, mas Evelyn e Richard foram para a rua brincar com os flocos de neve. Pequenas bolotinhas de gelo, frescas e doces, que desciam e tocavam os rostos das crianças. Evelyn e Richard sorriram um para o outro, cúmplices. Sra. Friedrich tirou "um cisco" do olho.

A noite chegou e a árvore descansava a um canto, colorida demais para o mundo cinzento. Roger e Kate trouxeram neve para dentro, mas logo ela derreteu. Não havia problema, todos podiam ver sua cor (sim, porque ela parecia ter tão mais cor do que tudo na rua) pelo janelão da saleta de jantar. Todos sentaram-se (com os rostos ainda sujos de tinta) para tomar a sopa, que tinha muito mais sabor aquele ano, e o doce que Richard comprara. Em um certo momento, Sra. Friedrich apareceu com uma bela estrela dourada, muito antiga, e colocou sobre a árvore. Todos admiravam a beleza pura de sua obra de arte comunitária. Parecia que não havia nada de ruim acontecendo do lado de fora.

- Aquela foi a noite mais feliz de minha vida, se querem saber - disse um senhor muito velhinho para um grupo grande de crianças orfãs à sua frente - E passamos a sempre viver com o rosto manchado de tinta.
- O que aconteceu com todos, senhor Roger?
- Richard nunca mais voltou a morar com o pai. Ficou em nossa casa, e casou-se com Evelyn. Todo Natal montávamos uma árvore simples e pequena, mesmo depois que a vida começou a melhorar. Eu e Kate ensinamos nossa família a fazer o mesmo - disse Roger olhando para um homem e uma mulher muito parecidos com ele e com Kate - Vocês veem: de alguma forma, eu sabia que aquele Natal seria diferente.










Comentários

  1. Boa tarde.
    Desculpa o incomodo, mas venho hoje pedir que olhe com carinho meu blog de resenhas literárias, o O Leitor.
    Se puder fazer parte, agradecemos.

    Obrigada e uma ótima quarta-feira. Beijos,

    Pamela.

    ResponderExcluir
  2. Eu li esse texto, mas não comentei. Como posso não tê-lo comentado antes? o.o' Enfim... Eu achei a narrativa linda e mágica. E faz olhar para esse passado com uma esperança interna na pergunta: "Será que naqueles tempos de guerra, alguém parou para pensar naquelas crianças e tentar fazê-las acreditarem no melhor, mesmo diante tudo aquilo?" Sim. Prefiro acreditar que sim. Bem... Eu fico emocionada com essas coisas ^^' Ai ai Lets... Você hein? Sempre nos fazendo olhar para o lado e admirar, até mesmo a formiguinha que passa medrosa fugindo de nossos pés. Te adoro!

    ResponderExcluir

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