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O Cara do Bar


Ele contava uma história diferente para cada nova pessoa que encontrava. Sorria fracamente ou alegremente, dependia da história. Sentava-se em um banco de bar todos os dias e sempre pedia o mesmo café. Quem sentasse ao seu lado no balcão ouviria uma história diferente.

Uma moça foi a primeira do dia. Era loira, bela, mas tinha uma expressão muito séria. Pediu uma dose de wisky, que virou em segundos.

- Seus olhos não me enganam, já vi esse olhar antes - ele disse, chamando atenção da garota - amargo, arrependido, mas lá atrás tem dor.
- Quem é você? - disse ela meio indignada.
- Meu nome é irrelevante. Posso ser um ombro amigo, hoje. O que te aflige?
- Partiram meu coração e eu sabia que não deveria ter me permitido fazer isso de novo.
- Amar é inevitável e é a melhor coisa que alguém pode fazer na vida. Ser amado é um reflexo.
- Então o espelho está quebrado, moço.
- Concerte-o. Esse espelho não fica rachado, se não quiser. É uma bela moça e com certeza tem conteúdo dentro de si; mostre isso às pessoas.

A moça sorriu. Pediu uma água.


- E você sabe tanto sobre amor, como?
- Era um galã na juventude...

 Depois de um tempo, a moça saiu.

O próximo era um rapaz de olhar abandonado. Pediu um refrigerante.

- Refrigerante? Sério? Cade seus amigos para ficarem bêbados?
- Ocupados em seus empregos. Estou a caminho da biblioteca, não posso beber.
- Sua expressão é perfeita para um cara que afoga mágoas em álcool. O que tem para afogar?
- Não importa.
- Claro que importa! Importa para você, já é o bastante.
- As coisas parecem mais difíceis de se conseguir, ultimamente. Parecem o horizonte: não importa o quanto eu ande, mais longe ficam.
- Continue andando. O que uma vez foi o horizonte é agora onde você está. Não pare, pois a vida não pára.

O rapaz acenou a cabeça, pagou a latinha e saiu.

O próximo era um motoqueiro. Poeta.

- Espalhe sua poesia! Certa vez conheci um cara, escrevia em guardanapos. Disse-lhe para recitar para as pessoas. Ganhou muitos admiradores...

Uma recém viúva, senhorinha de cabelos roxos, foi procurar o neto (o barman). Ela não precisou de ajuda. O barman sim.

Depois, veio mais uma e mais outra pessoa. Um conselho atrás do outro. Alguns não perguntavam sobre o cara do bar, mas outros pediam sua história; estava sempre preparado.

- Fui esfaqueado em uma festa.
- Nunca mais pude correr depois daquele acidente.
- Partiram meu coração da pior forma que você pode imaginar...

No fim do dia, o barman vira-se para o cara, que passou o dia com um café e uma água, e diz:

- Quem é você, afinal? Um padre? Psicólogo?
- Sou um cara.
- E porque ajuda todas essas pessoas?
- Para me ajudar. Um dia, um banco, várias pessoas. Cada história me ajuda a criar a minha história.
- Não acha que devia estar seguindo seus conselhos ao invés de sentar-se e viver pelos outros?

Não respondeu. Sorriu, deixou o dinheiro no balcão e saiu. Pegou uma caneta e um bloquinho, anotou algumas coisas enquanto andava. Melhor inspiração para um escritor, não haveria; melhor terapia para a alma? Ajudar pessoas. Guardou a caneta e o bloco no bolso e pensou qual seria o bar do dia seguinte.

Sua vida era viver sua escrita. Simples assim.

Comentários

  1. Belo texto,só falta caprichar na cara do blog

    ResponderExcluir
  2. Bom texto! Parabéns! Tens talento. Abraço!

    salpage.blogspot.com.br

    ResponderExcluir
  3. Oi Letícia, tivemos quase a mesma ideia! Gostei da sua abordagem.

    Vai participar de novo do Bloínquês essa semana? Já estou escrevendo uma história aqui, vamos lá! :D


    Grande abraço.

    ResponderExcluir
  4. Ai que lindo o seu texto, muito interessante a forma como ele foi escrito.. E o final melhor ainda, claro que tinha que ser um escritor (: Beijos
    http://primeirapessoa-dosingular.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  5. Olá Letícia. Gostei muito do seu conto, gosto de ler coisas reais, do cotidiano e sua escrita flui bem com os diálogos.
    Parabéns pelo texto!

    http://escritoslisergicos.blogspot.com

    ResponderExcluir

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