27 abril 2012

O Soldado e a Menina


Sentado. O mundo se esvai ao seu redor, mesmo porque parece que não há mais mundo. Peso em suas costas e coração. Era um assassino. Era vítima. Era um peão. Por que devia ser colocado naquele tabuleiro sem propósito?

Mas ele não podia pensar assim. Devia honrar a pátria, honrar sua missão. Se na morte houvesse honra, certamente não seria este o tipo de honra que ele poderia querer.

Fora criado para odiá-los. E odiava, todos. Os que devia mirar e os que o mandavam mirar. Mas só odiava os segundos pelo que fora obrigado a fazer.

O outro rapaz estava agonizando. Olhos que imploravam pela morte se voltaram para o soldado; o que mais poderia fazer?

Matou um amigo.

Sentou-se, sem ar, em um lugar afastado. Depois de sujar as mãos com este sangue, percebeu com quanto sangue já estava sujo. Percebeu que estava no lugar errado. Percebeu que não havia mundo...

Uma garotinha se aproximou. Olhar assustado, pés descalços, mãos tremiam levemente.

Assustado no assustado, verde no preto, medo no medo. Os olhos se encontraram. Ofegaram.

O soldado não fez esforço para pegar a arma que tinha deixado ao lado do corpo. Era só uma menina, tão assustada quanto ele. Ela, por sua vez, avançou mais um passo.

- Entende o que digo? - perguntou o sodado.
- Um pouco.
- Vem cá... - a garota hesitou - venha, não vou te fazer mal.

Ela se aproximou lentamente. Dava pra ver uma travessura espiando pela beirada dos seus lábios.
Ele colocou a mão no bolso e tirou um biscoito. Esticou para a menina, que encarou o agrado como se fosse algo feio mas fantástico.

- Pega.

Pegou.

- Você é legal. - disse ela de boca farinhenta. Os olhinhos brilhavam de curiosidade.
- É claro que sou. - o soldado murmurou.
- Os outros homens de verde não são assim. Eles não sorriem e não têm biscoito.
- Se me olhar no rosto vai ver as tristes marcas no sorriso...
- Como?
- Já vi muita coisa ruim, criança. Meu sorriso está manchado.
- Eu também já vi. Mas ainda sorrio... quando olho para os animais brincando, para flores brotando, para biscoitos de homens de verde...

O rapaz sorriu para a menina, com olhos tristes. Gostaria de ter os olhos de uma criança de novo.

- Como funciona isso aí? - a garotinha apontou a arma.
- Ah, essa aqui - disse o soldado rindo, pegando-a. Explicou-lhe uma história fantástica. Contou sobre sua vida sem sentido em casa, que parecia ter mais sentido que a vida agora. Ela contou suas brincadeiras e aventuras.

Eles riram. O mundo explodia em fogo, lá fora, mas para eles era só risos. As vezes um não entendia o que o outro dizia, mas, quem se importa? Eram peões de um tabuleiro triste de sangue, o soldado e a menina. Acabavam de desistir de jogar.






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5 comentários:

  1. Lindo teu conto e participação.Em meio àquele terror, havia tempo pra risadas , amizade e amor enquanto sós. beijos,chica

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  2. Olá Letícia,de todos os contos que li sobre o tema (incluindo o meu), o seu foi o mais original na maneira de escrever. Foi quase uma poesia.

    Gostei do resultado final.


    Abraço.

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  3. AMEI TEU BLOG LINDA.

    Seguindo logico...
    Se puder me segue tbem?

    Ha e participa do sorteio ta?
    http://paulinhapiink.blogspot.com/

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  4. A menina desarma
    a arma verde do soldado
    com seu olhar encabulado.

    Luiz Alfredo - poeta

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  5. Captou sentimento e ânsia de esperança nesse mundo tão simplório. Onde entra o amor À pátria se há ódio à outras pessoas ? Fiquei pensando ao acabar de ler seu conto. Fantástico Lets. Adoro aprender mais com você ! :D

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