Pular para o conteúdo principal

O Azarão [Markus Zusak]

Sol amarelo, céu avermelhado.
Primeira parte do sol. Franzindo a testa.
Última parte do sol. Um sorriso.
(Markus Zusak, O Azarão, p. 159)

É com esse tipo de poesia que Markus Zusak descreve os sonhos e os dias de Cameron Wolfe, um perdedor. Não tem amigos, obedece tudo que o irmão manda, não há atitude em Cam... O garoto nos narra seus dias e suas noites (em sonhos muito estranhos e belos) nesta história que é o primeiro romance de Markus e cujo protagonista, como diz na orelha, tem um quê de autobiográfico; adoro no resumo a frase final: "uma existência comum - ou seja, extraordinária". É disso que Zusak gosta (e sabe) de falar. É disso que "O Azarão" (Bertrand Brasil, 2012) vive.

Este é um livro que não consegui criar uma opinião de primeira. Foi preciso digerir tudo. Não sei se isso é bom. Mas, refletindo, posso dizer que é agradável e que um fã de Markus (como eu) percebe que é um ensaio para o que será "Eu Sou o Mensageiro" e "A Menina que Roubava Livros". Já há a poesia maravilhosa que Markus usa para contar suas histórias e já há o tema do garoto que não sabe para onde vai, que apareceu sob outras formas nos seus outros livros.

Pergunto-me se Markus não era assim. Perdido. Isso me faz me identificar muito com ele.


"O Azarão" acaba muito rápido. É um livro rápido. E a história se desenrola rapidamente também. Podemos dizer que é um pequeno retrato de um momento da vida de um garoto que começa a perceber os problemas à sua volta e como eles podem ou não se resolver. Por vezes é um pouco depressivo, pois Cameron é deprimido, além de apático. O garoto só começa a perceber o mundo e a necessidade de começar a viver, realmente, e não apenas de sobreviver, após conhecer a garota de seus sonhos. Não tem como contar muita coisa sem acabar contando a história do livro.

Ao fim, fiquei um pouco triste. Não quero dar spoilers. Mas há algo na história que me entristece. Posso dizer que o final foge ao esperado e é belo, tocante. Ao mesmo tempo, deixa um vazio e um sentimento de "mas já?". É por isso que também estou ansiosa para ler as continuações "Fighting Ruben Wolfe" (que no Brasil será "Bons de Briga") e "When Dogs Cry". 

Mais do que recomendado para fãs de Markus e para pessoas que sabem (ou querem saber) como é estar na pele de um Azarão (aliás, não gosto dessa tradução... azarão não remete tão bem ao significado de "underdog" para eles - por-fora, excluído, deslocado...). Em resumo, é um livro para sentir o crescimento de Markus como autor e reviver o seu próprio crescimento como pessoa, ao ver o menino Cameron descobrir que está na hora de tornar-se homem.

-----------------------------------------

Este livro não ia ser a primeira postagem da nova coluna "Sem Título", mas acabou sendo, pois terminei hoje e estou no mundo dele. Mas já tenho outras postagens em mente, aguardem. Agora, vamos à uma pequena reflexão sobre porque este livro veio ganhar seu espacinho aqui no blog.

Bom, num primeiro momento, está bem na cara: o título ("underdog" é a palavra inspiradora para o blog), o autor (um dos que mais amo na face da Terra) e a história (um garoto perdido na vida que não sabe de onde vem e para onde vai). Assim que descobri Markus com "A Menina que Roubava Livros" tive vontade de ler este livro, pelo nome e por ser o primeiro. Então foi extremamente emocionante quando o ganhei.

Acho que a grande reflexão aqui é quanto ao que estamos fazendo de nossas vidas: será que estamos sendo relevantes para nós mesmos e para as pessoas à nossa volta, fazendo coisas úteis e agradáveis? Será que estamos realmente agindo e vivendo, ou estamos apenas perambulando por aí sem saber mesmo o que estamos fazendo? Será que estamos dando a devida atenção para quem nos cerca?

Estas são algumas coisas que consegui pensar com o livro, mas, mais que tudo, essa história me tocou profundamente com a poesia. Markus escreveu do seu jeito poético em prosa alguns dos sonhos mais lindos e tudo que posso dizer, caro leitor, é que se você se identifica com um dos adjetivos sinônimos à "por-fora", você vai amar o livro. O azarão luta, sozinho, contra o mundo; poderíamos fazer diferente e nos juntar para vencer essa briga.


Comentários

  1. parece interessante. a proposito preciso conversa com você sobre o nosso blog, tive umas ideias. bjs

    http://escritor-a.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  2. Olá, tudo bem?
    Hoje eu estava procurando algum livro do Markus que não fosse "A menina que roubava livros", pois este, inclusive, já li, e me deparo com seu blog e essa resenha maravilhosa*-* Me identifiquei de cara com o personagem principal, pois também me sinto perdida o tempo todo...

    Beijos,

    ser-escritora.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá, tudo sim, e você?
      Poxa, que bom que gostou da resenha, me sinto honrada *-* Ser perdido é ruim, eu também sou assim (por isso o blog tem o tema que tem rsrs)... Leia o livro, vai gostar :) e, se quiser mais um outro do Markus, leia Eu Sou o Mensageiro (se ainda não tiver lido), é perfeito também.

      Bjs

      Excluir

Postar um comentário

Obrigada pela visita! Deixe um comentário e compartilhe com os amigos!

Postagens mais visitadas

A História de Tudo

Havia uma rua, com árvores, e alguém a atravessava. Tudo ali era um pedaço de Universo.
Um pedaço da vasta história de tudo.
A pessoa que a atravessava. O chão. As árvores. O vento que soprava.

Cada átomo e molécula uma combinação de combinações em uma grande e infinita caixa de peças de montar. Encaixe como queira. Pegue um pouco de estrelas, um pouco de dente de sabre, um pouco de cometas, um teco de folhas de hortelã. Ali vai uma bicicleta.

Cada canto para o qual olhava, via uma infinidade de possibilidades.
Não viu aquela galáxia, velha conhecida, colidindo consigo.
No chão, riram. Ondas se propagando por todo o espaço. Ergueram-se. Sorriram.

Era nébula. Nefertiti. Pétalas de rosa e gotas de mar do pacífico.
Era asteroides. César. Marfim e casca de salgueiro.
A vastidão da amazônia na imponência de Júpiter, olho no olho.

O Universo. É. Simplesmente. Desde quando começou a ser. Sem mais, sem menos. Apenas reorganizando-se como uma lista de pensamentos, uma sucessão de pastas. Combinando-se…

Leite com Vodka

Sua bebida favorita sempre foi leite. Aquele líquido branco e um pouco denso, que bebês adoram. Bebia com tudo: chocolate, morango, groselha... Era um bebedor. Seus lanches não eram feitos sem leite. E se não o bebia, misturava em algum outro ingrediente. Sucrilhos, frutas batidas. Nutritivo da cabeça aos pés. O alimentava por dentro e ele consumia com orgulho.

Então cresceu. Você sabe, quando crescem eles mudam os interesses. Não mais desenhava os programas que via. Agora via apenas a parede do quarto e festas banhadas a vodka. Ah, a vodka. Virou sua bebida preferida, com toda certeza. Aquele cheiro forte no líquido transparente, que jovens usam para se mostrar descolados. Bebia com tudo: frutas batidas, sucos, refrigerantes, sem nada. Virava uma dose e outra. Descolado da cabeça aos pés, na moda, inteiramente parte do grupo.

Mas a vida não era só Leite ou Vodka. Pelo menos não mais. Foi em mais um dia de Vodka que a encontrou. Ela lhe sorriu e ele se aproximou. Parece que foi à …

Outro Estranho na Janela

Leia a primeira parte dessa história: Um Estranho Na Janela
Texto para a oficina criativa do colégio, inspirado na imagem de uma edição do Bloínquês que não consegui participar porque não consegui escrever o texto a tempo.
Dedicado aos Chapeleiros e Alices do mundo.
O sol dourado de outono brilhava a meio caminho do chão. A moça sentava-se em uma telha mais macia, no telhado de sua casa. Usava um vestido confortável e tinha os pés descalços. Largou o pequeno livro amarelo que lia no peitoril da janela e viu as árvores se espreguiçarem.

Nas casas ao redor, cachorros latiam para os donos que chegavam mais cedo. Crianças vinham sorrindo da escola. Um dia comum e pacato.

Alice gostava de sentar-se no telhado desde a noite em que seu irmão disse ter visto Papai Noel na janela. Fora tão surpreendente ouvir Felipe dizendo aquilo, já que ele costumava ser tão chato e estraga-prazeres, que seu passatempo virou sentar-se no telhado e esperá-lo.

Mas um dia todos crescem e Alice parou de acredit…