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Um Último Suspiro

Santos, 21 de Dezembro de 2012

Cara pessoa que lê esta carta,

Não sei quem você é, não sei nem se alguém vai ler isso. Sei que minha letra deve estar muito ruim, sei que deve estar difícil para ler, mas estou tremendo e embaixo de uma mesa. Não sei se tenho muito tempo.

Poxa, não sei nem se vai sobrar alguém para ler isso!

Estava no carro, chegando em casa após fazer compras no mercado. Aquelas coisas básicas. Antes, tinha ido conversar com um editor. Foi quando estacionei na porta de casa que aconteceu.

O rádio parou de tocar e, chiando, pude ouvir anunciarem aterrorizados que em várias partes do mundo tudo estava sendo devastado.

Eu pensei "Oras, mas aqui não pode acontecer nada. Aqui não dá para ter maremoto, ou terremoto, ou qualquer coisa assim".

Mas estava errado. Quando entrei correndo em casa e liguei a TV, vi a catástrofe. O mundo estava sendo lavado e a sujeira era a vida humana. Não haviam imagens do fim em outros lugares, porque não havia ninguém para filmar. Os jornalistas apenas anunciavam.

Como não se sabia o que ia acontecer por aqui e nem quando, eu resolvi fazer o que achei mais prudente: desliguei a TV, peguei uma macarronada do dia anterior, esquentei e comi. Depois peguei um chocolate para comer enquanto colocava minhas músicas preferidas para tocar, no mais alto volume.

Pela vizinhança, as pessoas entravam em seus carros com alguns mantimentos e iam embora, em pânico. Mas, se o desastre era mundial, de que adiantava? Eu não entraria em crise e teria um acesso. Por mais medo que sentisse e por mais tristeza que houvesse em meu coração, nada iria adiantar.

Vamos todos morrer, desde o momento em que nascemos. Temos medo de quando esse dia chega. Mas o dia chegou para todos, então, o que podemos fazer a não ser aproveitar os últimos minutos?


Fiz ligações, para quem eu conseguisse falar da família e para os amigos mais próximos. No caso da família, todos choravam desesperados; dos amigos, alguns faziam as coisas que mais gostavam, outros estavam bêbados e um deles dizia que iria saltar.

Era meu melhor amigo e estava com o celular, pendurado na janela do prédio em que trabalhava, me dizendo que não tinha por que esperar, era melhor acabar com tudo logo. Respondi "mas e se for um engano e todos sobreviverem? Não faça isso!" mas ele não me escutou.

Depois que desliguei o último telefonema (minha mãe, de novo), a verdade finalmente me atingiu. Nunca fui atropelado por um trem-bala, mas imagino que seja como me senti. Então decidi pegar um papel, uma caneta, o resto do chocolate e uma lanterna. Corri para baixo da escrivaninha do escritório-biblioteca, como quando era criança e tinha medo de algo. Fiquei ali, encolhido comendo chocolate e ouvindo a música que tocava na sala. Acendi a lanterna, para enxergar melhor o papel, pois decidi não ligar a luz do escritório.

Seria interessante se tudo acabasse aqui, no lugar onde viajei para os mais belos lugares com os mais incríveis livros e onde escrevi as minhas várias histórias.

É injusto morrer quando se tem tanto para viver. Hoje mesmo estive conversando com um editor, certo? Minha carreira de tradutor e revisor estava indo bem e, agora, surgia a oportunidade de finalmente lançar um livro meu. Mas no fim, para quê? Ninguém nunca o leria e eu nunca o veria nas livrarias.

Eu também nunca rodaria o mundo, nunca aprenderia um monte de coisas que ainda queria, nunca terminaria o mestrado... DROGA! Estudei tudo aquilo para acabar assim?! Eu também nunca casaria e teria filhos...

Apesar de que a oportunidade já veio... A única pessoa a realmente ler o meu romance inteiro e dizer o que achava. "Está maravilhoso, Diego" lembro-me dela dizendo, em uma madrugada em que a acordei para ler o que havia acabado de escrever. Falava com voz sonada, uma caneca de café na mão e os olhos quase fechados.

Eu nunca veria o amor da minha vida novamente.

Agora estou chorando feito um bebê por tudo que não será feito da minha vida e tudo o que foi; remorso de algumas escolhas e a dúvida se outras foram as corretas; dor pelo amor perdido, dor pelos sonhos acabados e medo. Um medo insano que aperta meu peito de uma forma que parece uma enorme garra querendo tirar cata gota de sangue do meu coração enquanto o espreme; então tudo sai pelos olhos em forma de lágrimas.

Não sei quanto tempo estou sentado aqui chorando. Não sei o que acontece lá fora. Apenas sei que as músicas da minha seleção "favoritos de todos os tempos" continua a soar pela casa. Mas, aparentemente, não está alto o suficiente para abafar a campainha.

Não deve ser alguém querendo me saquear, se fosse não tocaria a campainha...

Eu vou abrir a porta e depois, se não for um maníaco que vai me matar, eu volto e conto quem era.

...

...

Abri a porta e me deparei com cachos loiros e olhos castanhos molhados me olhando de uma forma que não existe palavra na língua portuguesa para descrever. Talvez em outra língua exista. Ela estava ali, na minha frente, e as lágrimas escorriam pelos nossos olhos: o choro de antes, o choro de agora e o choro de para sempre.

"Eu não podia, não podia ficar sem te ver uma última vez, Diego" e uma martelada na minha cabeça foi a sensação que tive quando percebi que, quando o mundo está acabando, não precisamos nos preocupar com o que foi dito e prometido. Precisamos simplesmente fazer as coisas que sempre quisemos, todas que estiverem ao alcance... precisamos perdoar e falar. Falar como nunca falamos, com pessoas que sentimos que precisam ouvir algo de nós. Precisamos aproveitar os segundos finais.

Sempre fui daqueles que diz que ao invés de fazer como todos (que apenas no momento em que vê a morte iminente é que começa a fazer tudo o que queria durante a vida e a observar o mundo como ele deveria ser visto) precisávamos, na verdade, viver o tempo todo, desde sempre, cada segundo como se fosse o último.

E agora, olhando para ela, para minha Angeline, eu vejo que não, eu nunca fiz isso como deveria ter feito. Agora, mesmo que nós dois, há um tempo atrás, tivéssemos prometido nunca mais nos ver porque "não estava funcionando", precisávamos oficialmente esquecer essa baboseira.

Eu precisava viver a vida em minutos que não sabia por quanto tempo se estenderiam. Não dava para fazer loucuras, não poderia conquistar tudo o que queria e tampouco formar uma família e vê-la crescer. Também não dava para ver as belas coisas da vida. Pelo menos não todas, porque elas são infinitas e ninguém conseguiria ver tudo.

Mas podíamos criar nosso cenário e nossa pequena vida.

Eu a abracei. Secamos nossas lágrimas e eu a puxei para o meio da sala, onde dançamos nossa canção, que, curiosamente, começava agora. Era "Cheek to Cheek", na versão de Frank Sinatra. Dançamos como se nada mais existisse, como se não houvesse mundo para acabar. Depois fomos para baixo da mesa em que eu estava, e segui sua sugestão de levar um cobertor também (aquela coisa infantil de que o cobertor te protege) e nos esprememos ali, enrolados no cobertor, com um chocolate na mão.

As coisas pequenas da vida sempre foram difíceis de se encontrar, mas quando nós a encontramos, ficamos completos. Só quem encontrou sabe como é. Este momento, sendo criança com alguém que me faz também ser adulto, escrevendo estas palavras, é uma dessas coisas pequenas. Mesmo com todo o pavor que sentimos, encontramos uma força, de algum lugar, para esquecer do barulho lá fora que tenta competir com a música alta tocando.

Nossas mãos suam. Quase não consigo segurar a caneta. Ela, com a cabeça no meu ombro, sussurra:

"Eu te amo. Até depois do fim do mundo."

E eu amo ela também. E sei que ela lê isso agora.

Se você encontrar esta carta, significa que sobreviveu à catástrofe. Se sim, espero que entenda o seguinte:

Ame quem está ao seu redor e te completa e deixe isto claro para si e para eles. Olhe o mundo à sua volta e perceba cada coisa bela que há nele. Todos os dias de sua vida faça pelo menos uma coisa que te traz felicidade. 

E lembre-se de que um cobertor num lugar apertado com chocolate são extremamente reconfortantes.

Boa sorte
Adeus.

Diego (e Angeline), em seu último suspiro.


Texto para a edição Cartas (Beta) do Bloínquês.

Comentários

  1. LINDO OMG
    Muito lindo, sério :o


    Triste quando deixamos de fazer alguma coisa que amamos ou dizer a alguém apenas pq nos damos o luxo de pensar que tem amanhã...


    Mas o texto tá muito mara!
    Parabéns :D

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  2. Tá muito lindo.
    Fez-me refletir algumas coisas sobre a vida.
    :)

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  3. Espetacular teu texto.Muito lindo! beijos,chica

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  4. me fez tremer nas bases! chorei por perceber quantas coisas vamos deixando para trás por causa de obrigações, deveres e o que achamos ser um modus operandi correto para nossas vidas, sem perceber que só estamos é ferrando com tudo. Parabéns, minha filha, por perceber isso e abrir os olhos de sua mãe

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  5. que fofo o comentário da sua mãe :)
    Seu texto tem essa característica adorável que eu tanto invejo: ele é inteligível
    eu sinceramente adoraria ter essa capacidade de me fazer entender
    é nítido que você pretende transmitir mensagens, suscitar ideias, e o consegue com muita naturalidade, sem ser atormentada pela tão frequente quanto afetada autocensura oriunda de infrutíferas comparações com os demais.
    xxx, Wilton

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  6. bom... se estamos lendo a carta é porque sobrevivemos né... e se sobrevivemos melhor é fazer o que ele disse antes que seja tarde! Parabéns pelo texto e pelo reconhecimento que lhe é devido! Que venham outras canecas! Abs

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  7. Nossa, fiquei sem fôlego ao ler essa carta.
    Faço parte da moderação do projeto pelo qual você fez a postagem.
    Parabéns pelo texto, realmente a caneca foi merecida.

    Um beijo.

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  8. A habilidade de contar histórias é para poucos. Você tem essa habilidade e é merecedora desse prêmio e de muitos outros que com certeza virão.Texto de uma linguagem simples,inteligente, envolvente e de uma muita sensibilidade. Amei.Chorei pela linda mensagem e por mais uma vez constatar que minha afilhada é muito especial. Parabéns querida!!

    P.S. Estou "anônima" porque não consegui de outra forma rsrsrs

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  9. Belíssimo texto onde o fim do mundo não é o importante, foi apenas um meio para o importante acontecer, ótimo texto de uma ótima mente.
    Vasconcellos, Matheus =D

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  10. Caramba ! Eu chorei! Amei, é lindo é... É Lets! *-*

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  11. fascinante nota-se uma mistura de cronica com um conto genial boa!!!!(thaisi Lima)

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  12. Parabéns pelas belas palavras escritora!!!... Bom texto para refletir os valores que achamos importantes. O simples é mais que palavras díficeis, altissonantes, simplesmente é.

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