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À Luz da Manhã

Para Matheus e João.
Ouça
Crescer é como correr descalço na areia. Os pequenos grãos tocam sua pele e você sente, mesmo com a maciez do movimento ou o impacto suave, a aspereza do solo. A sensação é incômoda, mas ao mesmo tempo libertadora. Você para, então, e olha ao redor. Olha as marcas de seu pé no caminho que fez e o modo como, em alguns momentos, eles foram suaves e quase imperceptíveis e, em outros, foram largos e espalhafatosos. Você olha para o outro lado e vê o quanto ainda há para ser marcado. O som do oceano chega aos seus ouvidos e a brisa sopra seus cabelos e você sorri: está bem ali, entre onde já correu e para onde ainda vai correr. Mas, no fim, você só quer sentir seus pés afundando na areia enquanto o mar sopra sua canção ao vento.

Crescer é como subir uma colina de grama verde molhada pelo orvalho da manhã. Você quer saber, mais do que tudo, o que há do outro lado: serão montanhas ou vales? Serão córregos ou lagos? Que tipos de árvores haverão para serem escaladas? Mas antes de abraçar tal visão, você apenas toca a grama úmida e sente seu perfume doce, enquanto põe um pé à frente do outro.

Crescer é como sentar-se em uma praça vazia em uma noite escura, com o vento frio entrando debaixo do casaco. No céu há nuvens e a lua é minguante. Tudo o que você pode ver é um pedestre ou outro, um carro ou outro. Você pode observar os desenhos no chão de pedra, ou encarar o busto no centro da praça. Mas quer apenas voltar-se para si e o tremor que sente quando o frio sopra sua nuca.

Crescer é como entrar em um teatro quente e cheio e ouvir centenas de vozes nos mais diferentes tons falando desalinhadas. É como ler um livro em uma madrugada, com uma xícara de café ou chá esfriando ao lado. É trocar os dentes, um a um, e ralar o joelho, cada um, e se espetar no espinho de uma rosa, toda vez, e engasgar com a lágrima de um riso, cada vez.

Crescer é como uma canção. Você a ouve e dança, acompanha o ritmo, tendo dois pés esquerdos ou não. Às vezes a canção fica tão agitada que você se perde nos passos. Outras, ela soa tão solitária que não há espaço.

Crescer... Condição para viver. E por que faz sempre o coração de quem cresce sentir-se tão incompleto, incerto? Onde se pode encontrar novamente o conforto de chorar apenas por um joelho e não pela vagueza?

Crescer é ambíguo e tortuoso e paradoxo. Crescer é ter saudade. Crescer é faltar palavras. Crescer é impossível e é tudo o que há. Seria crescer escrever uma história? Crescer, então, para ser a melhor que puder e ver, por fim, o rumo para o qual o mundo cresce. 

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