Rostos do universo - A nova Doutora

Existe alguém nesse universo que viaja pelo tempo e espaço consertando tudo o que está quebrado, puxando pela mão as pessoas mais extraordinárias para ajudá-lo na tarefa. Essas pessoas são as mais comuns e invisíveis aos olhos de quem passa correndo pela vida, sem se atentar a nada. Mas, para este viajante, não existe comum e não existe pouco importante. As vidas que cruzam seu caminho mudam para sempre, maravilhadas com sua grandiosidade e com as cores do universo.

Este viajante é o Doutor.
Ou seria a Doutora?

Na série Doctor Who, o alienígena viajante do tempo e espaço tem uma TARDIS para se transportar e dois corações. É tanto amor e generosidade que são dois corações. Não usa armas, usa uma ferramenta (a chave de fenda sônica, que agora talvez vire um canivete sônico, já que percebeu que o aparelho realiza muitas funções). E, quando chega ao fim de uma vida, regenera para começar de novo com outro rosto e praticamente outra personalidade.

Claramente, lá quando a série era recém criada, na década de sessenta, a regeneração foi uma forma de manter a existência do programa mesmo que mudasse o ator. Hoje, depois de muitos roteiristas geniais, vejo toda uma simbologia para isto. O Doctor teve muitos rostos - catorze no total - e cada rosto veio com um papel; eram representações de si e do que ele precisava resolver consigo mesmo, talvez. Eram os rostos que ele precisava para cumprir suas missões naquele momento. E a regeneração é, logicamente, a passagem para seguir em frente e começar uma nova fase.

Regeneramos todo o tempo, só não mudamos de rosto.

E, neste domingo (07/10), o novo rosto do Doutor teve sua grande estreia. E agora é Doutora. Jodie Whittaker chega nesta nova temporada como o décimo terceiro rosto (eu disse catorze, eu sei, um dos rostos não tem nome de número mas sim de "Doutor da Guerra", por isso ela é a 13) e com uma missão muito grande: ser a primeira mulher como Doctor. E ela arrasa.

A roupa da Doutora já tem todo um significado: confortável e moderninha (mais ou menos), tem os tons do universo. O forro do casaco tem a cor das sufragistas e o brinco, detalhe desta doutora, tem o significado mais bonito: as estrelas, de onde ela vem, ligadas às mãos se cumprimentando, que seriam ela e a humanidade. Para quem prestou atenção, a roupa dela é totalmente ela, mas ao mesmo tempo não perde a essência de "Doctor" (usando a palavra em inglês para manter a neutralidade já que me refiro a todos os gêneros).

Depois, temos o episódio em si, que já mostra o time de produção completamente novo dando sua personalidade e visão à serie e fazendo isso com grande qualidade. Falas marcantes, cenas grandiosas, paisagens lindas e personagens reais.

Os personagens são a parte mais importante de Doctor Who: eles precisam ser carismáticos e bem construídos, com arcos estruturados e um crescimento pessoal ao longo de sua trajetória com o/a Doctor. Nesta temporada, temos pessoas reais e que precisam estar lá, tem um papel a desempenhar e fazem o espectador se conectar com eles.

A grandiosidade de mais de cinquenta anos de série não acabou. E duvido que acabará. Doctor Who está aí para mostrar que sempre há uma saída, mesmo que todas as opções pareçam ruins, e que sempre é possível resolver as coisas: com diálogo e pensamento. Doctor Who está aí para mostrar que todos os seres são importantes e que cada pequena existência ou ação afeta o desenrolar das coisas. Está aí para mostrar que a vida é uma pilha de bom e ruim, o bom pode não amenizar o ruim, mas o ruim não vai acabar com o bom ou torna-lo menos importante. Está ai para mostrar que todos nós somos capazes de coisas incríveis se quisermos e que estamos todos sempre mudando, o que é bom desde que não se esqueça de todas as pessoas que fomos. Desde que não esqueçamos de quando estendemos a mão.

Doctor Who está aí para nos mostrar que não podemos ser cruéis ou covardes, nunca desistir ou ceder. Devemos ser gentis. E lembrar que o medo nos faz fortes e nos une. Lembrar que o amor é uma promessa.

Comente com o Facebook:

0 Comentários