Borboleta Amarela

Limpou a janela com um pano, vendo o reflexo do quadro de uma mulher, o cabelo preso e a roupa bordô, em seu cavalo saltando um obstáculo de hipismo. Viu o reflexo encardido da sala suja, potes de comida na mesa de centro e peças de roupa na poltrona, coisas largadas aqui e ali. Viu o reflexo do balcão da cozinha cheio de maquiagens e viu seu rosto branco de nariz vermelho e olhos tristes.

Abaixo, na rua, duas crianças passam imitando um desenho animado. Cantavam a música e depois reproduziam as falas, com vozes e risos agudos.
- Vamos caçar águas-vivas, Patrick?
- Vamos, Bob Esponja!
Correram pela calçada, estendendo as mãos para uma borboleta que passava voando sobre eles, como se fosse ela água-viva e a rua o fundo do mar.

Esbarraram em um rapaz que vinha chutando uma pedra, uma sacola em mãos.
- Desculpe, moço. - disse o garoto mais alto.
- Sem problemas. Vá brincar com seu amigo. - respondeu, e chutou a pedra para o menino. Saiu jogando-a feito bola pela rua com o amigo.

Parou de limpar a janela. Atendeu o interfone e deixou o rapaz subir.
De dentro da sacola, tirou um napolitano e duas colheres.

- Feliz aniversário, mocinha. Nada de hospital hoje. Vamos fazer uma festa aqui e as crianças lá podem sonhar sem você por uma tarde.
Ela sorriu e tirou o nariz de plástico do rosto, enquanto via o rapaz abrir a janela. Enquanto a luz da tarde se desenhava no chão, uma borboleta amarela voou para dentro da sala.


Original de junho/2015

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